O movimento de libertação animal: Histórico, motivações e vivências

Resumo: Este trabalho tem o intuito de analisar o movimento social de defesa da libertação animal. Para isso, serão discutidos conceitos ligados à área de sociologia, bem como conceitos específicos da temática abordada. A análise do grupo em questão será pautada em entrevistas feitas com ativistas distintos, embasadas pelos conceitos previamente trabalhados, discutindo dessa forma as principais motivações, vivências e opiniões destas pessoas.

Cultura Contemporânea

Professora Heloisa Pait

UNESP-Marília, 2009

Cássia Oliveira Moraes

Abstract: This paper aims to analyze the social movement in defense of animal liberation. For this, we will discuss concepts related to areas of sociology, as well as concepts specifics of the theme. The analysis of the group will be guided by interviews with activists distinct, reinforced by the concepts previously worked, so discussing the main motivations, experiences and opinions of these people.

Contents

1.              Introdução              2

2.              Reflexão Teórica.              3

3.              Movimento de Libertação Animal: teoria, histórico e vivências.              4

4.              Conclusões              8

5.              Bibliografia              10

6.              Outras Fontes              10

1. Introdução

s três estágios da verdade:
1. Ridicularização
2. Oposição Violenta
3. Aceitação (Earthlings)

Falar sobre a questão da Libertação Animal é algo difícil… O assunto é envolto por tabus e falsos axiomas e, apesar de sua relevância e do número crescente de pessoas envolvidas, ainda há muito poucas publicações a respeito. Defender tal bandeira, então, é mais complicado ainda, pois além da sociedade não estar esclarecida sobre o tema, a exploração animal está diretamente ligada com os interesses de grupos econômicos extremamente influentes e poderosos.

Assim, esse trabalho tem o intuito de dar voz àqueles que sofrem diariamente os mais diversos abusos infligidos por nós, seres humanos, e que não podem se representar na nossa sociedade. Ao abordar o tema, pretendo também fazer uma homenagem sincera aos ativistas que trabalham essa questão e lutam, na medida do possível, por um mundo mais justo para todos os seres que habitam o nosso planeta. Aviso desde já que a narrativa dos entrevistados se confundirá muitas vezes com a minha, até porque não poderia ser diferente, estou falando de um tema caro para mim…

Para abordar a questão da Libertação Animal, escolhi trabalhar com pessoas que estão diretamente envolvidas com o tema, perguntando a elas o motivo pelo qual elas viraram vegetarianas/veganas, por que elas viraram ativistas, a opinião delas sobre o uso de animais em esportes, etc. Entretanto, a questão principal que eu busco refletir melhor é o motivo que levou cada um a optar por divulgar a causa. Fazer as entrevistas foi muito fácil. Alguns dos entrevistados são pessoas que eu conheço pessoalmente e admiro muito. Muitos, porém, são pessoas que eu nunca tinha falado na vida e se dispuseram prontamente a contribuir para a execução deste trabalho. A todos, muito obrigada!

Para a confecção deste artigo foram usadas obras de sociologia discutidas ao longo do curso, bem como textos, filmes, artigos, livros e documentários específicos da temática abordada. Entretanto, a principal fonte foram as entrevistas realizadas com ativistas de Ong’s distintas ou que atuam de forma autônoma, totalizando 19 entrevistas com pessoas de 18 a 50 anos. A estrutura compreende uma revisão teórica das obras trabalhadas ao longo do curso, seguida por histórico e principais elementos teóricos do movimento de libertação animal e, finalmente, a narrativa e análise baseadas nas entrevistas coletadas, bem como em minha própria experiência.

2. Reflexão Teórica

que nos propuséramos era, de fato, nada menos do que descobrir por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie. (ADORNO, Theodor e HORKHEIMER,Max, 2006)

Ao longo do semestre, foram analisadas as obras de diversos autores ligados à área de sociologia, os quais proporcionaram debates sobre temas distintos. Entretanto, para a confecção dessa pesquisa, optei por utilizar os conceitos trabalhados por Georg Simmel, Adorno, Horkheimer e Geertz. Primeiramente, acredito que será de muita utilidade fazer algumas considerações sobre os conceitos apresentados por Simmel sobre forma e conteúdo dentro da esfera das relações sociais. Para ele, o principal objetivo da sociologia seria justamente separar analiticamente estes dois elementos, para assim poder avaliar as formas de interação presentes na sociedade, as quais podem se repetir em conteúdos diferentes.

Dessa maneira, pode-se afirmar que relações formais como dominação e subordinação estão presentes em diversos âmbitos da sociedade, como, por exemplo, na escravidão, na exploração do proletariado, na violência contra as mulheres e, finalmente, na relação entre os homens e os animais. Apesar de, tecnicamente, os animais não poderem ser considerados parte da sociedade, visto que não são seres humanos, nossas ações interferem diretamente na vida deles. Como veremos mais a frente, há pessoas que defendem inclusive que a sociedade inclua em sua esfera de consideração moral também os animais, como foi feito com os negros há não muito tempo atrás…

A escola de Frankfurt, representada no curso por Adorno e Horkheimer, contribui para a temática através de sua teoria crítica ao capitalismo. No texto analisado, os autores criticam a forma como a cultura se transformou numa indústria alienante. Pode-se utilizar a mesma lógica para a produção de animais em massa, indústria esta que trata seres sencientes como objetos e mata cerca de 33 bilhões por ano, no chamado “Holocausto Animal”. Por fim, tantos os entrevistados quanto eu discordamos da forma pela qual Geertz aborda a briga de galos balinesa. A cultura não deve servir de justificativa para a manutenção de práticas cruéis. Afinal, na idade média fazia parte da cultura (religiosa) queimar mulheres acusadas de feitiçaria, fato este que não torna tal prática moralmente aceitável…

3. Movimento de Libertação Animal: teoria, histórico e vivências

ão queremos jaulas maiores, queremos jaulas vazias.
(Tom Reagan)

A luta pela libertação animal pode parecer um fato social recente, porém podemos encontrar grupos e relatos históricos sobre o tema já no século XIX, como, por exemplo, o Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals(RSPCA), na Inglaterra. Contudo, é durante a década de 70 do século XX que o movimento em prol da libertação animal ganha mais força, inicialmente na Europa e, em um segundo momento, espalhando-se pelo mundo todo. Fazendo uso de ações diretas[1] ou apostando na conscientização das pessoas, grupos como o Animal Liberation Front (ALF) visam o fim da exploração animal em suas variadas formas e são cada vez mais numerosos.

Assim, as duas principais vertentes do movimento em prol da libertação animal diferem apenas no modus operandi, que pode ser baseado em ações diretas ou conscientização popular. Muitas vezes, ambas as estratégias estão presentes. A primeira vertente, como se pode observar no documentário “Behind the mask”, tem por princípio a ação direta não violenta como forma de desobediência civil. As principais diretrizes que estes ativistas seguem são: 1. Libertar animais em situação de abuso; 2. Promover danos econômicos a quem lucra com a exploração animal. 3. Revelar as atrocidades cometidas contra os animais. 4. Não ferir animal algum, humano ou não-humano. Vale ressaltar que, apesar da ALF ser considerada pelo FBI a principal organização terrorista doméstica nos EUA, seus membros jamais feriram pessoas ou animais durante os atos.

A segunda vertente, a qual eu irei trabalhar ao longo do artigo, caracteriza-se pela divulgação do vegetarianismo e promoção de protestos contra a exploração animal. O princípio ético que envolve as duas está pautado na abolição do especismo, termo cunhado pelo filósofo Richard Ryder para designar a discriminação baseada na atribuição a animais sencientes diferentes valores e direitos baseados na sua espécie (SINGER, Peter, 1975). Especismo, racismo e sexismo são, dessa forma, preconceitos que se baseiam em aparências. Observa-se que o fato do ser em questão não ter uma aparência externa igual à do discriminador, faz com que ele deixe de ter seus interesses atendidos do ponto de vista moral (GAE-POA). Logo, para os ativistas de cunho abolicionista, o que importa não é se os animais têm ou não capacidade de raciocinar, fazer foguetes, tocar uma sonata ou dançar a dança do quadrado, mas sim a capacidade que eles têm de sofrer, se relacionar com o meio em que vivem, entre outras características que constituem a sensiência inerente à todos os animais, humanos ou não.

Tendo sido feito um breve histórico sobre o movimento de libertação animal e a apresentação das principais questões éticas que dão embasamento teórico para este movimento social, é chegada a hora de apresentar vivências de pessoas que fazem parte deste grupo. A principal questão a ser respondida é por que as pessoas entrevistadas acham importante divulgar o vegetarianismo, o que as motiva a disseminar informações relativas ao tema. Contudo, outras questões relevantes foram feitas anteriormente, com o intuito de mostrar ao leitor um pouco mais do que pensam as pessoas pertencentes ao grupo trabalhado, contextualizando-o melhor também no tema como um todo.

Em primeiro lugar, acho conveniente falar um pouco sobre a minha ligação pessoal com o tema, para que o leitor possa saber de onde parte o discurso que ele está lendo. Eu me tornei vegetariana com 14 anos, há quase seis anos atrás. Acredito que sempre achei de alguma forma errado o hábito de comer animais, mas preferia ignorar a trajetória que o bife que eu comia todo dia fazia até chegar ao meu prato. Não me lembro bem como, mas um dia, movida pela curiosidade inerente à juventude, e à minha pessoa em particular, resolvi assistir uns documentários a respeito através da internet. Quando eu vi passo a passo como os animais eram mortos, o sangue escorrendo aos montes, berros, sinais evidentes de dor, algo em mim mudou para sempre. Percebi que, para eu comer aquele bife, eu infligia muita dor e um estilo de vida desumano a criaturas inocentes, sendo que eu podia muito bem mudar a minha alimentação e evitar tudo isso. Desse dia em diante fiquei com asco de me alimentar de cadáveres e fiz uma opção que iria me acompanhar pelo resto de minha vida.

Mas, no meu íntimo, sentia que não era o suficiente. Nesse sentido, muitos dos entrevistados disseram a mesma coisa, que a necessidade de fazer mais do que não comer carne surgiu como algo natural. É angustiante você saber que bilhões de animais são martirizados no mundo, vítimas das mais diversas atividades econômicas realizadas pelo ser humano e não fazer nada a respeito. Acho que Nancy, uma senhora ativista entrevistada no documentário “Behind the mask”, exprime bem essa angústia relatada por mim e pela maioria dos entrevistados: “Passei metade da vida sentindo pena dos animais, e a outra metade com ódio das pessoas que fazem dinheiro às custas do sofrimento deles”. Para mim, contudo, a oportunidade de agir em prol dos animais surgiu não faz muito tempo, em julho deste ano. Por coincidência ou destino, na mesma semana e no mesmo lugar (PUC-RJ) que estava sendo realizado o ABRI, evento de Relações Internacionais, ocorreu o 12º Festival Vegano Internacional. Posso dizer que neste evento fiz contatos e conversei com diversas pessoas, o que me auxiliou a atuar na área hoje em dia.

Bom, aqui se encerra essa pequena narrativa pessoal e começam as vivências dos entrevistados. Por critério lógico, o primeiro ponto que deve ser apresentado é o motivo pelo qual eles se tornaram vegetarianos, fato este diretamente relacionado com a opção futura pelo ativismo. Essa foi a única pergunta que, no geral, houve um consenso. Todos os ativistas entrevistados relataram que a questão ética foi a determinante para eles terem optado pelo vegetarianismo (não consumir nenhum tipo de animal) ou veganismo (não consumir carne e nenhum produto de origem animal ou testado em animais), sendo secundárias questões como estética, saúde e meio ambiente, relacionadas também ao tema. Priscila, 25 anos, residente em São Paulo-SP relata: “Entendi aos 14 que aquilo que consumia eram pedaços de corpos de animais. Sempre amei animais, entretanto foi tão difícil fazer essa conexão”.

José Antônio, 48 anos e também residente em São Paulo-SP complementa em sua resposta: “Já era protetor de animais e aí fui a uma palestra em 2002, ‘Natal sem morte’, no Ibirapuera.  Foi quando caiu a ficha e percebi que todos são animais… Que animais criados para comer também são animais… Pode parecer idiota, mas é verdade, muitos não percebem que o bife do açougue foi uma vaca que também teve vida, sofrimento e dor…”. Mauri, 26 anos e residente em Vitória da Conquista-BH, descreve que seu irmão mais velho já era vegetariano e, à medida que ele tinha mais contato com o tema, resolveu virar também por motivos éticos. Alex, 20 anos, natural de Botucatu comenta que virou vegetariano aos 12 anos por compaixão pelos animais, passando a ver depois o vegetarianismo pelo seu lado ético, moral e político. Maria Angélica, 50 anos, residente em Adamantina conta que nasceu em uma família que adotava o vegetarianismo por motivos espirituais, mantendo essa postura pela prerrogativa ética de se recusar a “alimentar-se de seres sencientes”.

Vale ressaltar que muitos, senão a maioria dos entrevistados, atualmente são veganos. Vitor, 22 anos de Nova Iguaçu-RJ, descreve melhor esta escolha: “Quando me apresentaram o que acontecia com os animais para o abate e para a retirada de leite e ovos decidi que o melhor a fazer seria me tornar vegano.” Luis Martini, da Ong VEDDAS (Vegetarianismo Ético, Defesa dos Direitos Animais e Sociedade) completa: “Eu me tornei vegano por motivo ético. Percebi que o fato de apenas ser vegetariano ovo-lacto não ajudava em quase nada os animais. Há mais sofrimento em um copo de leite, do que em um bife. (…) A única diferença entre a indústria de laticínios e a da carne é que a primeira consegue explorar por mais tempo os animais e mesmo assim no final do período produtivo o destino é o mesmo, o matadouro. Nas granjas, as galinhas vivem em um espaço menor do que uma folha de papel sulfite, amontoadas, sem espaço para abrir as suas asas”.

O segundo questionamento feito pelos entrevistados foi o motivo pelo qual eles se tornaram ativistas. Angélica respondeu prontamente que “Devemos fazer aquilo que somos, em todos os segmentos da vida. Você não se torna ativista, você apenas descobre que sempre foi.” Alex conta que, para ele, “O ativismo foi uma necessidade, talvez natural, de divulgar e multiplicar na sociedade essa escolha pela igual consideração entre as espécies.” Vitor afirma que sua maior motivação foi o fato de as informações a respeito não chegarem a todas as pessoas pela grande mídia, além de ser uma forma de deixar sua consciência mais tranqüila. Fábio Chaves, 27 anos e dono do site http://www.vista-se.com.br, complementa: “Tornei-me ativista pela vontade de passar a mensagem pra frente pelo mesmo meio pelo qual a conheci (internet).”

Luis declarou que optou pelo ativismo “Porque todas as situações de exploração animal precisam ser evidenciadas à sociedade para que ela perceba como estamos infligindo dor e sofrimento aos animais e que não existe nenhuma justificativa moral para isso. O objetivo do meu ativismo é que a sociedade inclua em sua esfera de consideração moral também os animais.” Priscila disse que se tornou ativista por justiça: “Outros grupos excluídos puderam se juntar e estudar possibilidades cabíveis para provar seus direitos e conquistar a liberdade, a exemplo dos negros e das mulheres. Os animais, contudo, não podem fazer isso.” Por fim, Mauri me respondeu que “O silêncio só ajuda o opressor. Nunca a vitima. Se eu que tenho esse entendimento não faço alguma coisa, quem poderá fazer? Não conhecia ninguém relacionado à causa aqui na cidade onde moro. Por mero acaso do destino conheci uma pessoa pela internet e foi então que começamos a articular a criação de um coletivo.”

Como as outras pessoas da sala estão fazendo trabalhos sobre as olimpíadas, achei oportuno perguntar também a opinião dos entrevistados acerco do uso de animais em esportes olímpicos, no caso, hipismo. Ariene, 27 anos e residente em Adamantina teve uma posição ímpar dentre todos os entrevistados: “Complicado opinar por se tratar de um esporte respeitado. Acredito que quando há respeito e bom tratamento, não há problemas.” José Antônio respondeu que é contra, mas “acho que há muito mais sofrimento em outras práticas envolvendo animais e precisamos lutar pelos que sofrem mais (touradas, corrida de cães, rinhas, animais de laboratório, circos, caça, animais de consumo, rodeios, etc.) antes de pensar nos animais usados em olimpíadas, senão seremos tomados como loucos mais do que já somos.”

Luis indaga que “Se existem atletas e técnicos que não respeitam nem os Direitos Humanos, fazendo uso de ações auto-destrutivas, como o doping, o que pensar dos Direitos Animais?” Leandro, membro do Ativismo.com – Mídia e Coletivo pela libertação Animal e do Coletivo Odeio Rodeio[2], declara: “Por ser adepto do veganismo, sou contra o uso de animais em esporte, uma vez que não está sendo levando em conta se é interesse do cavalo ser utilizado daquela forma.” Angélica complementa dizendo que “os animais foram criados para fins mais nobres, não para serem usados como meros instrumentos de nossos egos.”

A última pergunta que eu fiz foi o motivo pelo qual eles achavam importante trabalhar na divulgação do vegetarianismo/veganismo. Um ponto que foi considerado importante por muitos entrevistados é que se não houvesse pessoas que divulgassem o vegetarianismo, eles mesmo nunca teriam tido contato com a temática. Nesse sentido, muitos entrevistados ressaltaram o papel importante que a internet desempenha para a divulgação das questões relativas ao vegetarianismo. Henrique, 21 anos, de Assis, comenta que acha importante divulgar pelo fato da grande maioria das pessoas não conhecer a verdade sobre as indústrias que exploram os animais. Leandro afirma que, além das questões ambientais e de saúde que estão relacionadas com o consumo de animais, “estamos salvando milhares de vidas e construindo um novo paradigma a respeito de como tratamos as outras espécies.”

Alex afirmou que “é importante divulgar o vegetarianismo para que a sociedade, como um todo, conheça toda a verdade de exploração e sofrimento que está por trás de um hábito aparentemente inocente que é o de se utilizar animais não-humanos como objeto ou mercadoria”. Júlia, 19 anos, natural de São Paulo completa ressaltando que “as pessoas não têm noção do que acontece com os animais, nunca pararam pra pensar no porquê elas colaboram diariamente com essa exploração. Acham certo apenas por que os pais deles faziam a mesma coisa. Só o fato de a pessoa parar para pensar já é um ganho.” Além da questão dos animais em si, Mauri acrescenta que “hoje, mais do que nunca, divulgar o vegetarianismo é lutar pela preservação do planeta, uma vez que várias pesquisas já apontam o vegetarianismo como uma boa saída para vários dos problemas enfrentados na área ambiental.” Angélica, finalmente, afirma que “o vegetarianismo implica no Meio Ambiente e na não matança de nossos irmãos menores. Além disso, promove também o equilíbrio ecológico e a harmonização planetária. E tudo isso não é apenas importante, mas vital para todos nós.”

Este, então, foi o depoimento de ativistas em prol da libertação animal que atuam no Brasil, em diferentes cidades e estados. A heterogeneidade de vivências, idades e opiniões contribuiu consideravelmente para o bom andamento do trabalho e a boa representatividade deste movimento social. Muito mais poderia ser dito, entretanto, eu escolhi trechos de diferentes entrevistas para mostrar opiniões diversas e fornecer mais informações sobre o tema. Vale lembrar que este trabalho apresenta apenas uma das facetas do vegetarianismo, sendo interessante, para quem quiser, pesquisar posteriormente sobre o impacto da criação de animais no meio ambiente e benefícios para a saúde humana oriundos dessa dieta. Resta agora fazer uma análise do que já foi apresentado e convidá-los a fazer mais alguns questionamentos.

4. Conclusões

ão comer carne significa muito mais para mim que uma simples defesa do meu organismo; é um gesto simbólico da minha vontade de viver em harmonia com a natureza. O homem precisa de um novo tipo de relação com a natureza, uma relação que seja de integração em vez de domínio, uma relação de pertencer a ela em vez de possuí-la.
(Perre Weil)

Antes de tudo, acredito que este trabalho é importante para trazer o assunto à tona no ambiente universitário. Nós, aqui na Unesp, temos contatos com diversos autores e teorias, estudamos diversas formas sociais de exploração e discriminação como a colonização, a violência de gênero, preconceitos raciais, entre outros. Contudo, não vejo aqui muitos debates sobre a questão dos animais e, de uma forma mais geral, sobre a questão do meio ambiente. Temos contato com autores que falam sobre ética nas ciências sociais e na filosofia, entretanto ignoramos a questão da violência contra os animais, presente nas mais diversas atividades do nosso dia-a-dia. A biologia e a fisiologia comparada nos provaram que temos muito mais em comum com outras espécies do que coisas que nos diferem. Por que não damos o próximo passo e passamos a considerar os animais como sujeitos de direitos também? Qual é a justificativa moral para as atrocidades que fazemos com eles? Você consegue pensar em alguma?

A partir do momento que você adquire consciência a respeito e passa a conhecer a forma como os animais são tratados, todos os tipos de abuso que são impostos e o quanto eles sofrem, você nunca mais vê o mundo e a sociedade da mesma forma. Nesse ponto, percebi ao longo dos questionários e conversas essa mesma sensação por parte dos entrevistados. Talvez isso nos torne parecidos com o estrangeiro descrito por Simmel, sendo que, no caso, talvez a palavra que melhor defina a situação seja “alienígena”, uma vez que a exploração animal ocorre em todo o planeta. Ao longo das respostas percebi também que para a maioria dos entrevistados o ativismo surgiu como forma de preencher esse vazio e tentar mudar um pouco esta realidade. Vale ressaltar mais uma vez que todos os entrevistados se tornaram vegetarianos majoritariamente por princípios éticos, motivação esta diretamente ligada com a opção posterior pelo ativismo.

Além da questão ética, o vegetarianismo está intrinsecamente relacionado com o meio ambiente. Segundo dados da FAO, a criação de animais para consumo humano é o maior vetor do aquecimento global! Aqui no Brasil, por exemplo, a pecuária é a maior responsável pelo desmatamento da Amazônia e pelas emissões de gases-estufa do país. Por que ninguém fala a respeito? Será que vale mesmo a pena gastar 15.000 L de água para um quilo de carne? Mais do que isso, será que vale a pena destinar 50% dos grãos produzidos no mundo e 75% da soja à criação intensiva de animais enquanto pessoas no mundo morrem de fome? Não me parece a maneira mais inteligente de usar nossos recursos naturais… E a questão da saúde? Vivemos em um mundo onde cresce cada vez mais o número de obesos e pessoas acima do peso, ao mesmo tempo em que cresce o consumo de carne, sobretudo nos países desenvolvidos. Dados científicos comprovam que consumidores de produtos de origem animal apresentam maiores chances de contrair câncer de cólon, intestino, estômago, boca, faringe, mama e próstata, entre outros, além de problemas cardiovasculares.

Peter Singer, em seu livro “Libertação Animal” afirma: “Aqueles que alegam se importar com o bem-estar dos seres humanos e com a preservação do meio ambiente deveriam se tornar vegetarianos só por esse motivo. Desta maneira, essas pessoas aumentariam a quantidade de grãos disponíveis para alimentar as pessoas em todos os lugares, reduziriam a poluição, poupariam água e energia e cessariam de contribuir para o desmatamento de florestas (…) Quando os não-vegetarianos dizem que ‘os problemas humanos vêm em primeiro lugar’, eu não consigo deixar de questionar o que exatamente eles estão fazendo pelos seres humanos que os obriga a continuar seu apoio ao desperdício e à brutal exploração dos animais de fazenda.” Fica aqui, então, o convite a todos para que repensem melhor seus hábitos alimentares. Vale ressaltar que, a despeito da fragmentação científica artificial a qual estamos habituados, na vida e no planeta tudo está mutuamente ligado. Dessa maneira, ao defender a igualdade, a justiça, a paz e o meio ambiente, nossas ações têm que ser coerentes com o nosso discurso. Como afirma a candidata a presidente do Brasil Marina Silva, “Hoje, para quem quiser se engajar, não é mais possível ser só ambientalista, ou só militante de causas sociais, políticas, culturais. É preciso se engajar em tudo, ser militante da civilização.”

5. Bibliografia

ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos, Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2006.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. , Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2001.

SIMMEL, Georg. Sociologia. Organizador Evaristo de Moraes Filho. São Paulo, Ática, 1983.

SINGER, Peter. Animal Liberation. Porto Alegre: Editora Lugano, 1975.

Os animais sob a visão da ética. Disponível em: <http://www.mp.go.gov.br/portalweb/hp/9/docs/os__animais__sob__a__visao__da__etica.pdf> Acesso em: 23/11/2009.

6. Outras Fontes

Documentário “Behind the mask: The Story of the People who Risk Everything to Save Animals“. Disponível em vídeo e no site (em espanhol): http://www.youtube.com/watch?v=EfiAaenTkpA . Acesso em: 29/11/2009.

Documentário “Earthlings“. Disponível em vídeo e no site: <http://www.youtube.com/watch?v=tZ8oxD9WLNo&gt;. Acesso em 28/11/2009.

http://www.animalliberationfront.com/ALFront/WhatisALF.htm Acesso em: 29/11/2009.

http://www.svb.org.br/12veganfestival/images/stories/pdf/Naconecy.pdf Acesso em: 22/11/2009.

http://www.gaepoa.org/site/index.php?m=QuemSomos Acesso em: 01/12/2009.

Efeitos globais do bife brasileiro. Disponível em:http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/efeitos_globais_do_bife_brasileiro.html . Acesso em: 01/12/2009.

Relatório do Greenpeace “A Farra do Boi na Amazônia”. Disponível em:
http://www.greenpeace.org/brasil/amazonia/gado . Acesso em: 01/12/2009.

http://jovemambientalista.blogspot.com/2009/03/um-pouco-mais-de-agua.html Acesso em: 02/12/2009.

http://sejavegetariano.vilabol.uol.com.br/saude.html. Acesso em 01/12/2009.

A Coragem de Fazer o Bem. Disponível em: http://www.institutoninarosa.org.br/produtos-inr/a-coragem-de-fazer . Acesso: 02/12/2009.

Ativistas se manifestam contra a carne. Folha de São Paulo. Disponível em:http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u662616.shtml . Acesso: 06/12/2009.

12


[1] Ação direta é uma forma de ativismo, que usa métodos mais imediatos para produzir mudanças desejáveis ou impedir práticas indesejáveis na sociedade (Wikepedia). Entende-se por “métodos mais imediatos” resgate de animais de laboratórios, sabotagem, destruição de locais que promovem o sofrimento animal, entre outros.

[2] Sites: http://www.ativismo.com e http://www.odeiorodeio.com .

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