Vegetarianismo: condição inescapável para o mundo melhor que todos queremos

 
Marly Winckler
Está claro. O vegetarianismo é condição inescapável para esse mundo melhor que todos queremos: um mundo em que haja paz, um mundo saudável, sustentável, compassivo e sem fome.Há um forte consenso de que a dieta vegetariana é mais saudável do que as que dão ênfase aos alimentos de origem animal. Uma dieta vegetariana reduz o risco de doenças crônicas e degenerativas, como cardiopatias, câncer, diabetes, obesidade, osteoporose, doenças da vesícula biliar e hipertensão. São as principais doenças que levam ao óbito nas sociedades ocidentais. A correlação entre doenças e alimentação está comprovada. Segundo a Sociedade Americana de Câncer pelo menos um terço dos óbitos por câncer naquele país estão ligados à alimentação.Uma dieta rica em vegetais atende, com mais freqüência, às recomendações atuais quanto ao percentual de gordura, carboidratos e proteínas do que as dietas onívoras. Segundo estas recomendações, devemos cortar as gorduras, sobretudo as saturadas, dar ênfase a grãos, frutas e vegetais e aumentar o consumo de fibras. Ora, esta é uma tarefa muito simples para um vegetariano.

Em uma dieta sem carne há menos possibilidade de contrairmos infecções bacterianas como, por exemplo, E. Coli, Camphylobacter ou Salmonella. Doenças como a encefalopatia espongiforme bovina (BSE ou doença da vaca louca), o vírus de leucemia bovina (BLV) e o vírus de imunodeficiência bovina (BIV) encontrados em animais podem afetar a saúde humana. Surtos de doenças em animais surgem com cada vez mais freqüência, como é o caso da gripe aviária, da aftosa e outras.

De acordo com o Dr. T. Colin Campbell, diretor do famoso Projeto China, um estudo epidemiológico sobre a relação entre dieta e saúde: “A vasta maioria, talvez 80 a 90% de todos os cânceres, doenças cardiovasculares e outras formas de doenças degenerativas podem ser prevenidas com a adoção de uma dieta vegetariana”.

O acrônimo de Standard American Diet ou Dieta Americana Padrão, é “SAD”, que em inglês significa triste. E é triste mesmo. Esta dieta foi posta “à prova” por sua possível ligação com centenas de milhões de mortes nos Estados Unidos. Cientistas produziram milhares de páginas de pesquisas sobre a ligação entre dieta e doenças crônicas degenerativas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) nomeou um grupo de especialistas em nutrição de todo o mundo para avaliar estas pesquisas. O resultado, um documento técnico de 200 páginas, intitulado “Dieta, Nutrição e Prevenção de Doenças Crônicas”, foi publicado em 1990. A conclusão foi: 

“As pesquisas médicas e científicas apontam para uma clara ligação entre fatores nutricionais e o risco de desenvolver doenças cardiovasculares, hipertensão, infarto, vários tipos de câncer, osteoporose, diabetes e outras doenças crônicas. Esse conhecimento é hoje suficientemente contundente para capacitar os governos a avaliar a qualidade dos padrões alimentares nacionais, detectar riscos e, assim, proteger sua população por meio de políticas que dêem preferência a alimentos saudáveis”.

A alimentação vegetariana apresenta muitos benefícios. A posição da ADA (American Dietetic Association) e Nutricionistas do Canadá de 2003 reúne os principais estudos científicos sérios sobre vegetarianismo1.

Eis alguns resultados:

  • Redução das mortes por infarto (doença cardíaca isquêmica) em 31% em homens vegetarianos e 20% em mulheres vegetarianas (estudo com 76 mil indivíduos).
  • Comparando a mortalidade por doenças cardíacas entre vegetarianos e semivegetarianos (no estudo considerado como consumidor de peixe ou carne 1 vez por semana), a mortalidade também é menor em vegetarianos.
  • Níveis sangüíneos de colesterol 14% mais baixos em ovo-lacto-vegetarianos do que nos comedores de carne.
  • Níveis sangüíneos de colesterol 35% mais baixos em veganos do que nos comedores de carne.
  • Menor pressão arterial (redução de 5 a 10 mmHg) nos vegetarianos.
  • Redução de até 50% do risco de apresentar diverticulite nos vegetarianos.
  • Redução de até 50% do risco de apresentar diabetes nos vegetarianos.
  • Probabilidade duas vezes menor de apresentar pedras na vesícula nas mulheres vegetarianas (estudo com 800 mulheres entre 40 e 69 anos).
  • Os não vegetarianos têm um risco 54% maior de ter câncer de próstata.
  • Os não vegetarianos têm um risco 88 % maior de ter câncer de intestino grosso (cólon e reto).
  • A carne vermelha ou branca está vinculada (de forma independente) com o risco aumentado de câncer de intestino grosso.
  • Redução da incidência de obesidade, um problema mundialmente preocupante.
  • Osteoporose: mulheres após a menopausa com dieta rica em proteína animal e pobre em proteína vegetal têm taxa mais alta de perda óssea e risco muito maior de ter fratura de quadril.
  • Pelo menor teor de proteínas e por melhorar os lipídios sangüíneos, a dieta vegetariana pode ser benéfica para os que sofrem de doença renal (principalmente os que não fazem diálise e apresentam diurese).
  • O consumo de carne aumenta em até 3 vezes as chances de desenvolver demência cerebral.
  • Uma dieta vegetariana sem derivados animais e com predominância de alimentos crus reduz os sintomas de fibromialgia.

Temos hoje no mundo um cenário desalentador. A fome é uma realidade dolorosa, persistente e desnecessária. No momento, existe suficiente terra, energia e água para bem alimentar mais que o dobro da população humana, contudo quase metade da colheita mundial de grãos é destinada aos animais enquanto milhões de seres humanos passam fome.

O Banco Mundial e a FAO (Food and Agriculture Organization, órgão das Nações Unidas) estimam que a fome crônica afeta mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo.

Ao contrário do que muitos pensam, o pobre está ficando cada vez mais pobre a cada ano.

  • No continente africano, cerca de um em cada quatro seres humanos é subnutrido.
  • Na Ásia e no Pacífico, 28% da população passam fome.
  • No Oriente Próximo, um em cada dez são subnutridos.
  • Na América Latina, uma em cada oito pessoas vai para a cama com fome todas as noites.
  • No Brasil, mais de 30 milhões de pessoas são classificadas como indigentes pelas estatísticas oficiais.

O estilo americano exerce uma influência enorme na vida de muitos países, e isso não se dá de forma inocente ou espontânea, mas é reflexo de lobby, políticas de incentivo, marketing da indústria de alimentos entre outras coisas. O Brasil não foge à regra ao importar esse estilo, que entra pesadamente tanto na maneira como são produzidos os alimentos, como nos hábitos que se alteram.

Certamente esta triste realidade está ligada a um sistema que exclui boa parte da população do acesso aos bens básicos necessários para assegurar-lhe uma vida digna. Investigar a questão da excludência passa necessariamente por uma análise profunda das premissas que fundamentam os sistemas dominantes no mundo. Mas uma coisa é certa: nossos hábitos alimentares se encontram estreitamente ligados a este quadro de miséria, subnutrição e fome descrito acima. Estão ligados também a um enorme desperdício, à degradação sem precedentes do meio ambiente e a um enorme sofrimento por parte dos animais.

  • Número de crianças que morrem em decorrência da desnutrição e fome a cada dia: 38.000
  • Freqüência com que morre uma criança na terra como resultado de desnutrição e fome: a cada 2,3 segundos
  • Quantidade de ração necessária para produzir um quilo de carne bovina: 5 a 7 kg

Uso da terra

Segundo o Instituto Cepa um boi precisa de 3,5 hectares e 4,5 anos em média para estar apto a ser abatido, gerando em média 210 quilos de carne. Nesta mesma terra e mesmo tempo, colhem-se no Brasil, em média:

19 toneladas de arroz

8 toneladas de feijão

34 toneladas de milho

23 toneladas de trigo

32 toneladas de soja

  • Quantidade de terra no mundo destinada a pastagens para o gado: metade
  • Quantidade de pessoas que poderiam ser alimentadas com cereais empregados na produção de um bife de 225 g: 40

É um disparate!

É tão grande o disparate que o Instituto Worldwach, que fornece indicadores sobre energia, uso da água, do solo etc. afirma:

Alimentar a população do mundo atual com uma dieta baseada no estilo americano exigiria 2 ½ vezes a quantidade de grãos produzidos no mundo. Um mundo futuro de 8 a 14 bilhões de pessoas alimentando-se com a ração americana de 220 gramas diários de carne gerada a partir do consumo de grãos não passa de um vôo da fantasia2

  • O consumo de grãos pelo rebanho animal está aumentando duas vezes mais rapidamente do que o consumo de grãos pelas pessoas.
  • Quantidade de soja cultivada nos EUA consumida pelos animais: 90%
  • Quantidade de milho cultivado nos EUA consumido pelos animais: 80%
  • Quantidade total de grãos produzidos nos EUA consumidos pelos animais: 70%
  • Quantidade da colheita mundial de grãos consumidos pelos animais durante os anos oitenta: Metade
  • Quantidade de milho cultivado no Brasil consumido pelos animais: 90%

Uso de água

A pecuária é um dos melhores exemplos de uso ineficiente de recursos hídricos. Além da água utilizada diretamente na produção dos animais, é preciso considerar também o que é gasto indiretamente, ou seja, na água usada para irrigar as culturas que vão fornecer alimento para esses animais.

Cerca de 70% da água doce captada dos rios, lagos e depósitos subterrâneos é destinada para uso agrícola, sendo que os 30% restantes são utilizados para as demais atividades (consumo doméstico, atividade industrial, geração de energia, recreação, abastecimento e outros).

Observando esse número pode parecer que consumir vegetais gasta mais água, já que a agricultura é a grande responsável pela utilização desse líquido precioso. Mas é importante saber que grande parte da nossa produção agrícola é usada para alimentar o gado, ou seja, a maior parte da água é utilizada para produzir carne.

No Brasil, são necessários em média 2 mil litros de água para produzir um quilo de soja. Para produzir cada quilo de carne bovina, por outro lado, são necessários cerca de 15 mil litros de água. Nesse cálculo entram não só a água que os animais bebem (cerca de 50 litros/dia), mas também a água utilizada na produção de seu alimento.3

Ou seja,

 

1 quilo de soja = 2 mil litros de água

1 quilo de carne = 15 mil litros de água

 

Aquecimento global

A pecuária é também uma das maiores fontes de emissão de gás metano para a atmosfera. O processo de formação do gás ocorre durante o processo digestivo de fermentação entérica de animais ruminantes, sendo o metano subproduto deste processo, liberado para a atmosfera através da flatulência e eructação dos animais. Em média, estima-se que 6% de todo o alimento consumido pelo gado no mundo seja convertido em gás metano. O metano é 24 vezes mais potente do que o dióxido de carbono para causar aquecimentos atmosféricos, contribuindo com 15% do total do aquecimento global.4 

Poluição da água & dejetos

A explosão da população de animais de criação resultou em uma paralela explosão de resíduos animais, que são grandes poluidores das águas. O nitrogênio proveniente destes resíduos é convertido em amônia e nitrato que se infiltram nas águas poluindo poços, contaminando rios e riachos e matando a vida aquática.

De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, cerca da metade dos poços e córregos do país estão contaminados.

No oeste catarinense a situação é muito grave não só de contaminação das águas, como da sua escassez e do acúmulo de excrementos. Para amenizar o problema, fazem piscinões forrados de plástico para colocar os dejetos dos porcos.

Na Holanda, o esterco gerado pelos 14 milhões de animais de produção provoca mais prejuízos que os automóveis e as fábricas juntos, segundo o Instituto Nacional de Saúde Pública e Proteção Ambiental do país.Parte desse excesso está sendo enviado para a

África de navio.

  • Poluição da água atribuível à agricultura, incluindo a vazão de solo, pesticidas e excrementos: Maior do que todas as fontes industriais e municipais combinadas
  • Produção de excremento dos animais de produção nos EUA: 104 mil kg por segundo
  • Resíduos gerados por umrebanho de 10 mil cabeças: igual a uma cidade de 110 mil habitantes

Em SC, apenas nos últimos 5 anos de produção intensiva de carne suína, foi gerado o equivalente aos dejetos de uma população de 100 milhões de pessoas (sem contar o impacto da produção de quase 900 mil toneladas de cama de aviário). Isto é, somente com a produção industrial de suínos SC produz uma quantidade de dejetos equivalente a uma população humana quase 20 vezes maior que sua atual população.

  • Quantidade de dejetos produzidos por um suíno: equivalente a 3,5 pessoas
  • Quantidade de excrementos gerados a cada kg de carne bovina: 7 litros

A criação de gado é responsável pelo desmatamento de 93% da Mata Atlântica, 80% da Caatinga, 50% do Cerrado e 18% da Amazônia.

A Amazônia está sendo devastada em grande medida pela criação de gado e cultivo de soja. Para quem vai essa soja? No Brasil não temos hábito de consumo de soja. Fora uma parcela substancial de soja para o óleo, o resto vai para exportação e vira ração para animais.

Em quarenta anos, de 1964 a 2004, o rebanho bovino da Amazônia saltou de 1,5 para 60 milhões de cabeças. Este lote representa 1/3 do rebanho brasileiro. Três cabeças de boi para cada habitante da Amazônia. No Brasil já há mais bois que gente!

A pecuária é altamente concentradora de renda. Inexiste uma única região do Brasil onde a pecuária promoveu o desenvolvimento com justiça social. Pior, a maior parte dos fazendeiros perde dinheiro com a atividade.5

Ao desconstruirmos o pedaço de carne que temos no nosso prato chegamos a um quadro de dor e miséria. A dieta centrada na carne tem impacto negativo sobre a saúde das pessoas, gera enorme sofrimento aos animais e é um dos fatores que mais agridem o meio ambiente e esgotam os recursos naturais, sendo um dos principais responsáveis também pela derrubada das florestas, pelo uso e contaminação das águas, pela perda da biodiversidade etc. Nunca na história da humanidade os animais foram criados e abatidos de forma tão cruel, confinados, impedidos de seus instintos mais básicos, gerando enorme estresse, doenças, sofrimento.

Todos queremos um mundo melhor, e muitas vezes nos sentimos impotentes diante dos graves problemas que assolam nosso país. Porém, ao mudarmos nossos hábitos alimentares podemos contribuir diretamente para a construção de uma sociedade mais equilibrada, sem fome e sem violência, que promove a paz para todos os seres, a compaixão intra e interespécies e preserva o meio ambiente. Um mundo pacífico, saudável e sustentável está inescapavelmente ligado ao que colocamos em nosso prato todos os dias.

 

Referências

  1. Posição da Associação Dietética Americana (ADA) sobre dietas vegetarianas
  2. Produção de alimentos, degradação ambiental e fome – Marly Winckler
  3. Folheto da Sociedade Vegetariana Brasileira sobre Água e Consumo de Carne
  4. A Pecuária e as Mudanças Climáticas – Sérgio Greif
  5. Você já comeu a Amazônia hoje? – João Meirelles Filho

 



Marly Winckler

Socióloga, fundadora e presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira, coordenadora para a América Latina da União Vegetariana Internacional (IVU), tradutora do livro “Libertação Animal”, de Peter Singer, e autora do livro “Fundamentos do Vegetarianismo”, entre outros, criadora do Sítio Vegetariano, maior portal sobre vegetarianismo em língua portuguesa.  

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