Vegetarianismo: As faces de uma (est)ética

Na República de Platão, Sócrates afirma: “Se continuamos com nosso hábito de comer animais e se nosso vizinho segue um caminho semelhante, não teremos necessidade de entrar em guerra contra ele para garantir pastagens maiores, porque as nossas não serão suficientes para nos sustentar e ele não teria uma necessidade semelhante de declarar-nos guerra pela mesma razão?”.

O ponto assinalado por Sócrates há 2.500 anos hoje se chama de sustentabilidade e não é um caso que os vegetarianos têm o filósofo¹ grego como referência em sua conduta. A questão é que esse rio, que era o pensamento vegetariano, se dividiu em muitas correntes: os flexitarian não comem carne, mas abrem exceções para carne branca, se estiverem certos de sua precedência; os demi-veg são vegetarianos só durante um período de tempo; os pescetarian ou fishitarian dizem não à carne, mas sim ao peixe, sem remorsos; os green eater limitam-se a comer prevalentemente “verde” e há até os less-meatarian ou meat-reducer: para eles a questão não é tanto reduzir o sofrimento do animal, mas alimentar-se de forma mais saudável e com menos impacto ambiental.

Hoje a contraposição² frontal dos vegetarianos contra o consumo de carne transformou-se em um universo caótico, de tendências contraditórias. Um dos lemas desse universo diz que feijão e afins contêm proteínas não-violentas: estamos numa época não de grandes, mas pequenos ideais. Passamos do “Give peace a chance” para o “Give pigs a chance”.

Em nossa sociedade secularizada, que faz do narcisismo de massa sua identidade, onde o corpo é nosso horizonte e a aparência nos define, ficamos, então, vegetarianos a ínterim: mobilidade e flexibilidade entraram também na alimentação. Se diz não à carne e sim ao sushi. O sushi é uma experiência estética que agrada também aos vegetarianos porque é ascética, aparência, comida incorpórea; e desmaterialização e velocidade são condições de hoje. A inconsistência agrada, numa época escassa de idéias fortes. Além do mais, o peixe não é “pessoa”, é morfologicamente muito distante de nós para que possa provocar sentidos de culpa: é sem sabor e politicamente correto.

Talvez tenha chegado a hora de perguntar se ser vegetariano³ é ainda uma ética ou se está inclinando para uma questão estética.

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