A enguia bebé que vale ouro

A enguia bebé que vale ouro

A pesca ilegal de juvenis está a ameaçar a sobrevivência da enguia nos rios portugueses. As capturas só são permitidas no rio Minho, mas a tentação do lucro é enorme: o meixão, como é conhecida a enguia bebé, chega a custar mais de mil euros o quilograma nos restaurantes espanhóis.

Para os espanhóis é uma iguaria de luxo. Em alguns países asiáticos também. Em Portugal, o meixão ou angula (juvenil da enguia) não consta habitualmente nos cardápios dos restaurantes, mas é capturado ilegalmente ao longo de quase toda a costa para exportação: um negócio que rende milhares de euros, mas que coloca em perigo a tão cobiçada enguia.
“A enguia-de-vidro (meixão) é muito apreciada na região de Espanha. Daí ter de existir captura suficiente para servir os imensos restaurantes e o apetite voraz em relação ao petisco que eles fazem com a angula”, disse ao DN José Eduardo Rebelo, doutorado em Biologia e docente na Universidade de Aveiro.
Embora a pesca do meixão tenha sido proibida em 2000, em todos os rios à excepção do Minho, a GNR apreende regularmente, em acções de fiscalização, dezenas de quilos de meixão pescado ilegalmente nos rios portugueses. Para capturar o juvenil da enguia, os pescadores usam redes idênticas às mosquiteiras, que não deixam escapar praticamente nenhum peixe. É que o petisco chega a ser vendido a 500 euros o quilograma. E nos restaurantes pode atingir os mil euros.

O meixão tem a forma típica da enguia, mas o corpo é transparente e bastante mais pequeno (mede entre 4 e 5 centímetros). Nasce no mar dos Sargaços (no meio do Atlântico) e viaja depois até aos rios europeus. Isto porque, no Outono, as enguias adultas partem dos rios para o mar dos Sargaços, onde desovam a profundidades elevadas.

“Quando atinge a área da postura, a fêmea faz a desova, o macho faz a postura dos espermatozóides e com o esforço ambos morrem”, explica José Rebelo. Cada fêmea faz a postura de milhões de ovos.

Após subirem à superfície, as larvas da enguia começam a ser arrastadas pela corrente quente do golfo do México até às costas europeias. “Fazem uma viagem de aproximadamente dois anos até chegar ao rio: nessa viagem, 80% das enguias de vidro morrem”, conta o biólogo.

Das sobreviventes, poucas resistem às adversidades do novo meio. “Dos 20% que sobrevivem, cerca de 80% morrem: a mortalidade natural é muito grande devido à necessidade de adaptação às condições do novo meio e grande parte morre também devido à influência do homem, que a apanha.”
Durante a migração, a enguia-de-vidro não se alimenta e a viagem até à costa europeia é feita à deriva. Só após essa longa viagem, que chega a atingir os 7500 quilómetros, é que a angula começa a ter capacidade autónoma de movimentação.

É também nessa fase, quando o meixão chega aos rios, que o homem comete o infanticídio da enguia. É que o meixão capturado, além de já não entrar na cadeia alimentar dos outros peixes, não atinge o estado adulto e jamais regressará ao mar dos Sargaços para desovar. A sobrepesca dos juvenis aparece assim como uma das principais ameaças à continuidade da espécie.

Ao chegar aos rios, os juvenis da enguia penetram até às zonas limpas, onde ficam durante 7 a 15 anos, até regressarem ao mar dos Sargaços, já adultos, para reproduzirem. Nenhuma enguia regressa.

Alertando para a complexidade do ciclo de vida da espécie, José Rebelo refere que “é necessário ter em conta que a enguia só se reproduz uma vez na vida, que é uma espécie migratória catádroma, o que implica grandes adaptações fisiológicas (passa da água salgada para água doce e da água doce para água salgada) e que passa muito tempo como enguia-de-vidro (meixão), sendo muito apreciada nessa fase”. E deixa o aviso: “Uma pesca desmesurada às larvas da enguia pode ter como consequência a extinção da espécie.”

via DN.

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