Archive for the ‘ABOLICIONISMO’ Category

A melhor palestra que você irá ouvir na sua vida – Gary Yourofsky

Palestra inspiradora de Gary Yourofsky, na íntegra, sobre direitos animais e veganismo, realizada na Universidade Georgia Tech, nos EUA, no verão de 2010. Ouça a esse sensacional palestrante que vai desmitificar mitos,inundar sua mente com fatos interessantes e ajudá-lo a fazer escolhas éticas para ter um coração e uma alma mais saudáveis . Seu estilo carismático de discurso é único e tem de ser visto por qualquer um que se preocupe com animais ou que deseje transformar o mundo um lugar melhor.

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Anima nobili x Anima vili: nós, os senhores do universo e os outros animais, nossos escravos…

por Paula Brügger

Diversos autores1 têm demonstrado, de forma contundente, como são problemáticos os dados provenientes da vivissecção – a realização de operações ou estudos em animais vivos para a observação de determinados fenômenos. Sob o ponto de vista ético a vivissecção é ainda mais insustentável, embora seus praticantes insistam em defendê-la se valendo de argumentos que, em maior ou menor grau, são improcedentes2. O mais comum e tosco deles – repetido ad nauseam – geralmente se expressa na famosa pergunta: – se não testarmos em animais testaremos em pessoas, ou em criancinhas? (como se não existissem alternativas ou métodos substitutivos e como se os seres humanos não fizessem parte de etapa alguma da pesquisa, entre outras considerações). Continuar a ler

Nunca fui santo

por Rafael Jacobsen

Conversar com pessoas elevadas espiritualmente costuma ser tarefa difícil, principalmente quando o tópico resvala para a questão que se poderia denominar “compaixão pelos animais”. Sempre, nessas ocasiões, acabo me vendo obrigado a revelar o meu vegetarianismo. Na maioria das vezes, o espiritualizado interlocutor responde, com sua voz calma, cheia de paz: “Sim, você está certo; é uma pena que eu ainda não tenha atingido esse estágio de evolução.” E não, em 97% das vezes, não se trata de uma ironia: a outra pessoa, de fato, crê que, para se tornar vegetariano, o sujeito precisa estar nos mais altos degraus de uma espécie de hipotético “ranking de santidade”. Continuar a ler

Abolicionismo Animal

Texto sobre Abolicionismo Animal feito para a apostila do 1° Educaveg – reunião de veganos, vegetarianos e onívoros de Assis e região, realizada pelo coletivo V.I.D.A. (Veículo de Intervenção pelo Direito Animal) em conjunto com a Fábrica da Leitura

Assim como o racismo afirma a superioridade de um grupo racial sobre outro, e o sexismo a superioridade de um sexo perante outro, o termo ESPECISMO significa julgarmos uma espécie superior a outra. Na escravidão animal, o especismo qualifica e justifica a exploração de animais não-humanos por animais humanos. Assim como os brancos tentaram impor-se sobre os negros (racismo), ou os homens sobre as mulheres (sexismo), hoje nós, humanos, tentamos nos impor sobre outras espécies de animais não-humanas. Tornando-as simples objetos e mercadorias, sem valor inerente, ou seja, o valor de suas vidas está diretamente relacionado ao uso que nós fazemos dela. Deixamos, portanto, de considerar o interesse desses animais em sua própria vida e liberdade. Continuar a ler

Os animais têm que permanecer amarrados

por Marcio de Almeida Bueno

Pois os humanos têm o estranho fascínio de conter os animais não-humanos, acorrentar, acoleirar, prender, confinar, amarrar, colocar grilhões, cabresto, para impedir a livre movimentação. Para impedir que vá embora. Para manter dentro das fronteiras de sua propriedade. Para a ave que ainda pode escolher a rota de vôo, e especificamente pode voar, há uma que vê o mundo através das gradezinhas de um aquário – uma gaiola, olho como o derradeiro fiapo de liberdade. Cardumes rodam sem mapa de navegação, mas os atuns já ganharam seu chiqueiro, para que não saiam das bordas de um proprietário, tolhidos da possibilidade de, oceano extenso, ir em frente. Mas não se permite. Continuar a ler

Propaganda, bem-estarismo e abolicionismo

Na quase totalidade dos casos, embalagens e propagandas de produtos de origem animal são representativas de um “romantismo rural”. Os métodos de criação ilustrados são aqueles que se praticavam a tempos passados ou em produções de pequena escala, sendo os animais, supostamente, “bem tratados” e mantidos com seus “comportamentos naturais”. O que se vende é a imagem de que os animais vivem e transformam-se em alimento humano, sem horrores ou traumas. Poderíamos até pensar que se trata, tão-somente, de um engano, porém, não é apenas isso. O cerne da questão: mente-se sobre a realidade, e essa mentira passa isenta de críticas.

Os animais são vistos como objetos, artigos de posse e usufruto humanos e, por isso mesmo, a criação de animais e a produção de alimentos com base neles não causa estranheza alguma por parte da maioria das pessoas. A despeito do que nós, abolicionistas, queremos, essa realidade parece estar longe de se alterar. Por mais que assim seja, deveríamos dentre outras coisas, exigir que, por objeção de consciência, em respeito à tão defendida verdade, ficassem proibidos os mascaramentos (e quem sabe com isso, mais e mais pessoas, tomando ciência da verdade, abolissem, pra começar, a carne do cardápio).

A alusão a uma realidade inexistente deveria não ser permitida. Todo produto de origem animal deveria trazer em sua embalagem imagens do real “processo de fabricação”. Elas deveriam exibir a verdade sobre a indústria da carne e derivados com fotografias reais dos criadouros e abatedouros. Ninguém merece ser protegido dessa verdade. As pessoas precisam saber o que está envolvido com o “inocente” hábito de consumir carne, leite, ovos e derivados que as tradições e ciências mantêm e impõem.

Mesmo os mais “sensíveis” consumidores de carne, desprovidos de coragem ou necessidade de matar pelas próprias mãos deveriam saber que suas escolhas “limpas de sangue” demandam que outras pessoas (quase sempre sem escolha) tenham que perder a compaixão, criar coragem, engolir o asco e sujar as mãos, em abatedouros, frigoríficos e açougues[1]. Aos “consumidores limpos” precisa ser repassado todos os ônus – econômicos, ambientais, sociais e éticos – da morte provocada de animais para servir de alimento a humanos.

No ano de 1996, foi promulgada a Lei Nº. 9.296, posteriormente modificada pela Lei Nº. 10.167, que dispõe sobre as restrições ao uso e à propaganda de produtos fumígeros, bebidas alcoólicas, medicamentos, terapias e defensivos agrícolas, nos termos do § 4° do art. 220 da Constituição Federal[2]. Essas legislações se fizeram necessárias porque a realidade de até então era típica de uma “terra de ninguém” em que imperavam os interesses dos grandes fabricantes e comerciantes.

Pelo menos a situação dos produtos do tabaco mudou ostensivamente. As antigas propagandas de cigarro que exibiam modelos jovens, bonitos, bem-sucedidos, aventureiros e saudáveis, incentivando o consumo de cigarros como que pré-requisito para a obtenção de um estilo de vida invejável foram proibidas[3]. Percebeu-se a incoerência por trás dessas propagandas. Perfídia, deslealdade, falsidade, mentira, fraude, hipocrisia, fingimento, impostura, mascaramento, dissimulação, obnubilação: essas são palavras que nos servem para descrever aquela realidade.

Graças à lei, hoje, todos os produtos fumígeros devem trazer em suas embalagens, advertências do Ministério da Saúde. Os textos e as imagens são diversos e chocantes – porém verdadeiros. Os problemas relacionados com o tabagismo e comunicados são: necroses, gangrenas e amputações; câncer de pulmão e enfisema; derrame cerebral; doenças do coração; impotência sexual; aborto espontâneo; câncer de boca e perda de dentes; câncer de laringe; partos prematuros e nascimento de crianças com peso abaixo do normal; asma, pneumonia, sinusite e alergia em crianças que convivem com fumantes.

Com base nessa conquista para a verdade, o que podemos afirmar sobre as propagandas e embalagens de produtos animais atualmente em exibição e circulação? A semelhança não é nada forçada[4]. Do mesmo modo que anteriormente, pinta-se um quadro imaginário, mascara-se a realidade, vende-se uma ideia falseada: a das “vaquinhas felizes” em “campos floridos” que têm suas vidas drenadas de seus corpos de modo rápido e indolor. Quase se pode “ler” um altruísmo por parte dos animais, como se os mesmos se entregassem voluntariamente e de bom grado à “pira sacrificial” para a manutenção das “sagradas”, “indispensáveis” e “prioritárias” vidas humanas.

A maior e mais representativa meta dos veganos é o abolicionismo animal, a expansão da comunidade moral, a instauração do senciocentrismo em substituição ao antropocentrismo que impera (não igualitariamente em todos os lugares) há alguns séculos. Entretanto, nós, veganos, devemos reconhecer – infeliz, mas realisticamente – a impossibilidade de uma instalação imediata e irrestrita, e daí a necessidade de reconhecermos nossa luta como futurista, mas futurista no sentido de ‘que antecede’, ‘que apresenta o futuro’ e não no sentido que ‘delira e dita o impossível’. A luta vegana como denunciadora de uma realidade cruel e anunciadora de um novo mundo no qual há de haver novos modos de produzir, viver e conviver que se faz material e racionalmente, baseada em “planos” estratégicos.

Para dialogar com o exposto neste artigo, seguem algumas linhas escritas por Jean Pierre Verdaguer [5].

“Se houvesse tecnologia para entender o pensamento animal, e se com ela pudéssemos escutar o que diz um porco em sua baia minúscula, muito provavelmente ouviríamos ‘por favor, irmão, eu lhe imploro, trate de convencer os humanos de que não está certo o que fazem conosco’, numa súplica que nos indicaria claramente o caminho do abolicionismo.

Sendo honestos com o porco, teríamos que responder, ‘estamos fazendo todo o possível, mas os humanos não são fáceis de lidar, são séculos de hábitos arraigados para transcender. Continuaremos lutando pela abolição com todas nossas energias. Mas, por hora, o máximo que podemos fazer é aumentar o tamanho de seu cativeiro, melhorar suas condições de vida e amenizar os horrores da sua morte’.

Como será que ele reagiria? ‘Muito obrigado por seus esforços, todo alívio é bem-vindo! E tomara que consiga nos libertar no futuro’. Ou ‘muito obrigado, mas se não pode libertar a mim e aos meus, migalhas bem-estaristas jamais aceitaremos’.”

Assim como o abolicionismo humano no Brasil (Lei Áurea de 13 de maio de 1888), ocorrido de modo não-descolado de um complexo processo sócio-histórico (lembremos que a lei da abolição foi antecedida, no âmbito das conquistas legais, pelas leis do “Ventre Livre” – de 28 de setembro de 1871 – e dos “Sexagenários” – de 28 de setembro de 1885), devemos nos entender quanto a necessidade de se fazer presente um processo sólido que ligue a ponta inicial da defesa de animais domésticos e de companhia e das medidas de bem-estarismo (“lida gentil” e “abate humanitário”) à ponta mais vanguardista que responde pelo nome de abolicionismo e direitos animais.

Levar em consideração o exposto acima não é deixar corromper nossos ideais, é sim empenho na elaboração e execução de um planejamento capaz de instaurar o senciocentrismo, ainda que não imediatamente, mas sempre de modo firme. Nós, veganos, devemos revisar nossas alianças (e desalianças). A estrada abolicionista poderá ser pavimentada nas abertas (e por abrir) trilhas “protetoras” e “bem-estaristas”, afinal, é andando que se faz o caminho.

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NOTAS

[1] ZOCOLOTTO, A. M. A imposição da violência. Disponível em: <http://www.anda.jor.br/?p=29270&gt; ou em: <http://www.pensataanimal.net/artigos/142-allan-menegassi-zocolotto/345-a-imposicao-da-violencia&gt;.

[2] Lei Nº. 9.296 de 15 de julho de 1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9294.htm&gt;. Acesso em: 09 mar. 2010; Lei Nº. 10.167 de 27 de dezembro de 2000. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L10167.htm&gt;. Acesso em: 09 mar. 2010.

[3] MATTEDI, José Carlos. Fim da propaganda de cigarros foi fundamental para queda do consumo entre jovens, avalia pesquisador. Disponível em: <http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/01/28/materia.2007-01-28.0516028868/&gt;. Acesso em: 08 nov. 2009.

[4] Modelos jovens, bonitos e saudáveis também aparecem nas propagandas e embalagens de produtos de origem animal. A saúde é identificada, por esses recursos de marketing, com o consumo de produtos animais enquanto que, cada vez mais, parece vir se tornando unanimidade, entre médicos e nutricionistas, a informação de que a ingestão de gorduras animais é o que mais pode culminar em prejuízos à saúde humana.

[5] VERDAGUER, Jean Pierre. Abolicionismo: vanguarda utópica ou futurista. Disponível em: <http://www.anda.jor.br/?p=21068>. Acesso em: 09 mar. 2010.

Fonte: Vista-se

Afinal, por que o especismo é errado?

Recentemente, em meio a um caloroso discurso em defesa dos animais numa conversa com um amigo, usei repetidamente o conceito de especismo, que significa a discriminação feita utilizando-se a espécie biológica como critério. Um termo, na verdade, cunhado em analogia aos seus irmãos racismosexismo e outras formas de discriminação.
Em uma certa altura, enquanto me referia ao especismo como inaceitável e como responsável pela forma que tratamos os animais, meu caro amigo me interrompeu. Uma pergunta essencial não havia sido respondida, e impedia a continuidade de um debate consistente.



– Mas, afinal, por que o especismo é errado?
Minha resposta segue abaixo.
Primeiro peço que vc leia minha resposta desarmado, sem se permitir exercer o conservadorismo cego (todos temos um pouco) de dizer coisas como “Ah, peraí! Isso é ridículo”, “Fala sério”, “Essa é manjada” ou algo do tipo, antes de refletir com tranquilidade.
Bem, vamos fazer o caminho inverso, pra chegar ao especismo no final:
Por muito tempo, as mulheres tiveram negados direitos que os seus contemporâneos masculinos tinham. Hoje, na maior parte do Ocidente, é consensual que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, então vou tomar como pressuposto que aqui todos concordam com isso.
Imagino que nós concordemos, contudo, que a igualdade de direitos entre homens e mulheres não pode ser consistentemente expandida para animais não-humanos. Mulheres têm direito, por exemplo, a voto, porque elas sãoo capazes de tomar decisões racionais a respeito do futuro quanto os homens; cachorros,por outro lado, são incapazes de entender o significado de votar, então eles simplesmente não podem ter esse direito. Existem inúmeras outras características queo idênticas entre homens e mulheres, e imensamente diferentes entre os humanos e os outros animais – o que parece justificar bem a concessão de uma quantidade muito maior de direitos comuns ao homem e à mulher, do que direitos comuns ao humano e ao não-humano.
Certamente, existem diferenças significantes entre humanos e outros animais. Essas diferenças, de fato, devem originar uma série de diferenças nos direitos que cada um tem. Porém, perceba, existem também diferenças significantes entre homens e mulheres, em menor grau – que deverão, portanto, originar diferenças (em menor quantidade) de direitos entre estes dois grupos. Não é surpresa para ninguém que homens e mulheres nem sempre tenham os mesmos direitos, repare: muita(o)s feministas defendem que mulheres têm o direito ao aborto, caso desejem. Não decorre disso, contudo, que tais feministas devem também defender o direito ao aborto para homens. Uma vez que o homem não tem a capacidade de abortar, não tem sentido falar sobre o seu direito de abortar. Uma vez que o cachorro não tem a capacidade de votar, não tem sentido falar sobre o seu direito de votar.
O conjunto de direitos que se deve dar a homens e mulheres, portanto, não é o mesmo; não obstante, falamos de “igualdade entre os sexos”. E não há nada de errado nisso – podemos, mesmo, falar de igualdade entre os sexos. O princípio da igualdade entre dois grupos não requer que o tratamento aos dois grupos seja perfeitamente igual; afinal, podem haver diferenças relevantes, que gerarão diferentes tratamentos e, portanto, diferentes direitos. É o caso do direito ao aborto (repare que você não precisa ser partidário do direito ao aborto para concordar com o raciocínio), e é também o caso do direito ao voto. O princípio da igualdade requer simplesmente a igual consideração dos interesses. Não há, portanto, nada de absurdo em expandir o princípio da igualdade aos animais não-humanos.
Essa última conclusão costuma soar incômoda, em virtude do paradigma de exploração animal – e de igualdade humana – estabelecido na nossa sociedade. A maioria de nós se opõe decididamente ao racismo e ao sexismo. Esta postura parece óbvia – mas, afinal, o que está na raiz desta nossa oposiçãoPor que, exatamente, essas formas de discriminaçãoo erradas? O que nós queremos dizer quando afirmamos que todos os humanos, independente de sexo, cor ou credo, são iguais? Afinal, por mais que sejamos entusiastas da igualdade entre humanos, temos que enfrentar o fato de que os humanos nascem com cores, formas e tamanhos diferentes. Não apenas isso, têm eles também capacidades intelectuais diferentes, aptidões diferentes, diferente sensibilidade às necessidades alheias, e diferentes habilidades de comunicação. Em resumo, se nós fôssemos basear nossa demanda por igualdade baseando-se na *efetiva* igualdade entre os seres humanos, encontrar-nos-íamos em maus lençóis.
Mas, então, será que a solução para este conflito lógico é conferir diferentes direitos a diferentes humanos – ainda que dentro do mesmo grupo étnico, ou do mesmo gênero? Acredito queo. Se fôssemos assim proceder, poderíamos, por exemplo, traçar um limiar de Q.I., abaixo do qual os humanos seriam feitos escravos daqueles com maior pontuação. Evidentemente, nenhum de nós aceitaria o uso deste critério.
A única solução que resta para o conflito, portanto, parece ser aceitar que a nossa reivindicação por igualdade não depende de inteligência, força física ou aptidão artística – da mesma forma queo depende de cor ou sexo. A igualdade não é a constatação de um fato; é uma idéia moral. Não há qualquer razão lógica para assumir que uma diferença factual qualquer entre dois indivíduos justifique diferenças na consideração que nós damos aos seus interesses. Diferenças de aparência ou de faculdades intelectuais não justificam tais diferenças de consideração.
Foi exatamente a esta conclusão que muitos abolicionistas chegaram, para combater o racismo que alicerçava a escravidão. Foi também a esta conclusão que feministas norte-americanas chegaram em meados do séc. XIX, para então argumentar em favor dos seus direitos.
O especismo é errado pelo mesmo motivo. De forma não só análoga, mas idêntica, ao racismo e ao sexismo, trata-se uma forma de discriminação de tratamento moral baseada em critérios irrelevantes para tanto.
Humanos e, digamos, vacas, têm significantes diferenças de aparência, de formas de expressão, cognição e linguagem, entre outros aspectos. Por este motivo, vacas não têm vários direitos que nós, humanos, temos: direito à informação, direito à cultura, direito ao voto, direito à educação.
Contudo, evidências empíricas e científicas – inúmeras – mostram que humanos e vacas têm uma percepção muito semelhante à dor e ao sofrimento psicológico, e uma percepção à alegria semelhante em certo grau – capacidades de percepçãoque chamamos de senciênciaO que falta, de fato, são evidências do contrário. Por esta razão, vacas e humanos têm, ambos, o direito a não se lhes ser causado sofrimento ou dor de qualquer natureza. Além disso, vacas têm a capacidade – e a motivação – para desempenhar comportamentos reprodutivos, sociais, ambulatórios e outros; e é por esse motivo que as vacas têm o direito à liberdade, isto éo direito a o ser propriedade.
Assumir que um animal não tem direito a ser livre de dor e sofrimento baseando-se na sua diferente espécie biológica, portanto, não faz qualquer sentido, e é um tipo de discriminaçãoo inconsistente e equivocado quanto o sexismo ou o racismo. Igualmente equivocado é assumir tal diferença de direitos baseando-se na capacidade cognitiva, artística ou mesmo na capacidade de “auto-consciência”. Os únicos critérios relevantes para a concessão de direitos são os interesses (na medida em que tais interesses não comprometam o direito do outro), e os animais não humanos seguramente têm interesse em não sofrer e não ser confinados.
Basicamente, é isso. Bebi no colega Peter Singer pra responder à tua pergunta com mais clareza; espero que tenha dado pra entender. Termino com um princípio geral do direito chamado isonomiaque já é amplamente aceito entre nós para a espécie humana, e está pronto para ser consistentemente aplicado aos demais seres vivos. É só a gente querer.
Deve-se tratar os iguais de forma igual e os desiguais de forma desigual, na medida de suas desigualdades.