Archive for the ‘Direitos Animais’ Category

A questão humana e o anarquismo

O símbolo da Veganarquia, de Brian A. Dominick.

O veganismo é uma prática moral que preza pela valorização da subjetividade dos animais não-humanos, evitando assim os abusos inerentes a objetificação dos mesmos. Contudo, tal definição per si seria especista. Por que não incluir nesse discurso a humanidade? Afinal, não existiria diferenças tão relevantes que permitiriam que o ser humano tivesse o ônus de poder ser, para conveniência de outrem, objetificado. Portanto, vejo que um dos maiores problemas teóricos de qualquer concepção que funda o veganismo, é a questão dos seres humanos. Continuar a ler

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Boas referências: “porque sem informação você fica pelado”

As referências que seguem compõem um vasto arquivo de algumas das produções mais significativas do campo dos Direitos Animais. Minha proposta em apresentá-lo não é, em absoluto, conseguir uma compilação que esgota o estado da arte do veganismo, mas, ao contrário, contribuir para que  outros possam, dando-se conta da infinidade de textos, saites e documentários, por exemplo, se animar em produzir ainda mais e colaborar, de algum modo, com a mudança de hábitos que deve acontecer para que nosso mundo se torne mais justo, igualitário, livre, equilibrado e pacífico, pleno de “gente fina, elegante e sincera”.


A. Blogues e saites significativos de personalidades, organizações e sociedades vegetarianas e veganas – bem-estaristas e abolicionistas Continuar a ler

Salvando o coelho da raposa [1]

Steve F. Sapontzis
Tradução: Fátima Romani e André Luiz Pereira

Revisão técnica: Luciano Carlos Cunha

Nas discussões sobre direitos animais, a questão da predação é geralmente abordada tanto como uma racionalização da nossa matança dos animais ou como base para uma objeçãoredutio ad absurdum (“mostrando a que tolice isso pode conduzir”) à reivindicação de que nós somos moralmente obrigados a diminuir o sofrimento animal evitável e injustificado. A racionalização toma a forma “já que eles predam uns aos outros, nós estamos moralmente justificados a predá-los”. Esta resposta, “Deixe colherem o que semeam!” como dirigida à questão dos direitos animais, foi abordada no capítulo 6[1]. A Reductio, que será o objeto deste capítulo, toma então a seguinte forma: Continuar a ler

Anima nobili x Anima vili: nós, os senhores do universo e os outros animais, nossos escravos…

por Paula Brügger

Diversos autores1 têm demonstrado, de forma contundente, como são problemáticos os dados provenientes da vivissecção – a realização de operações ou estudos em animais vivos para a observação de determinados fenômenos. Sob o ponto de vista ético a vivissecção é ainda mais insustentável, embora seus praticantes insistam em defendê-la se valendo de argumentos que, em maior ou menor grau, são improcedentes2. O mais comum e tosco deles – repetido ad nauseam – geralmente se expressa na famosa pergunta: – se não testarmos em animais testaremos em pessoas, ou em criancinhas? (como se não existissem alternativas ou métodos substitutivos e como se os seres humanos não fizessem parte de etapa alguma da pesquisa, entre outras considerações). Continuar a ler

Abolicionismo Animal

Texto sobre Abolicionismo Animal feito para a apostila do 1° Educaveg – reunião de veganos, vegetarianos e onívoros de Assis e região, realizada pelo coletivo V.I.D.A. (Veículo de Intervenção pelo Direito Animal) em conjunto com a Fábrica da Leitura

Assim como o racismo afirma a superioridade de um grupo racial sobre outro, e o sexismo a superioridade de um sexo perante outro, o termo ESPECISMO significa julgarmos uma espécie superior a outra. Na escravidão animal, o especismo qualifica e justifica a exploração de animais não-humanos por animais humanos. Assim como os brancos tentaram impor-se sobre os negros (racismo), ou os homens sobre as mulheres (sexismo), hoje nós, humanos, tentamos nos impor sobre outras espécies de animais não-humanas. Tornando-as simples objetos e mercadorias, sem valor inerente, ou seja, o valor de suas vidas está diretamente relacionado ao uso que nós fazemos dela. Deixamos, portanto, de considerar o interesse desses animais em sua própria vida e liberdade. Continuar a ler

Os animais têm que permanecer amarrados

por Marcio de Almeida Bueno

Pois os humanos têm o estranho fascínio de conter os animais não-humanos, acorrentar, acoleirar, prender, confinar, amarrar, colocar grilhões, cabresto, para impedir a livre movimentação. Para impedir que vá embora. Para manter dentro das fronteiras de sua propriedade. Para a ave que ainda pode escolher a rota de vôo, e especificamente pode voar, há uma que vê o mundo através das gradezinhas de um aquário – uma gaiola, olho como o derradeiro fiapo de liberdade. Cardumes rodam sem mapa de navegação, mas os atuns já ganharam seu chiqueiro, para que não saiam das bordas de um proprietário, tolhidos da possibilidade de, oceano extenso, ir em frente. Mas não se permite. Continuar a ler

Predadores e vampiros de vegetarianos

Direitos Animais

por Bruno Müller


Vez por outra recebo por intermédio de algum amigo vegano um link de mais um daqueles inúmeros textos que circulam na internet de carnívoros exercitando sua fina inteligência a ironizar vegetarianos e enaltecer o gene humano caçador. Não gosto de repassá-los para não alimentar a psicose alheia. Nem é preciso, pois quem já viu um, já viu todos. É sempre a mesma ladainha que sempre passa, invariavelmente, pela “vida secreta das plantas”. São os populares“alfascistas”. São, muito coerentemente, predadores e vampiros que se alimentam da atenção, raiva e bílis de vegetarianos desavisados.

Parece roteiro de filme B (ou C? ou Z?). A mesma fórmula batida com o mesmo enredo. Alguém descobriu que o tema “ode à carne” desperta a ira dos vegetarianos e, desde então, “jornalistas” sensacionalistas ou blogueiros carentes têm usado do artifício para suprir suas necessidades afetivas com um pouco de atenção negativa. E o filão não para de crescer, alimentado pela boa audiência de defensores de animais indignados. Os vegetarianos mordem a isca (pode ser especista, mas me parece uma analogia muito adequada!), e a trama segue o roteiro preestabelecido: uns xingam, outros amaldiçoam e alguns poucos até tentam falar sério – numa situação em que a seriedade só entra no enredo como “escada” para mais alguns exercícios de sarcasmo e humor “refinados”. Alguns carnívoros também se manifestam. Geralmente eles estão voltando de, ou partindo para, um churrasco. Sendo o Brasil o terceiro país do mundo em consumo de carne, não tenho motivos para duvidar da veracidade de suas alegações.

Toda trama bem-sucedida tem sua sequência, claro. O “escritor”, inebriado pela fama, começa amaldiçoando a educação no país – seus leitores formam uma massa de analfabetos funcionais incapazes de captar seu humor “inteligente”. Se a maioria discorda de você, está óbvio que é porque não sabe ler nem interpretar. Polemistas em geral sempre respondem aos seus críticos com uma condescendente acusação de estupidez e semianalfabetismo que, claro, lhes exime completamente da necessidade de responder às tais críticas com argumentos plausíveis. E se os fatos desmentem o polemista – pior para os fatos. Ele simplesmente os ignora. E eu, com minha limitada inteligência de vegano subnutrido, não consigo entender como pessoas tão inteligentes repetem sempre os mesmos axiomas que não requerem provas ou argumentos – até porque são autoevidentes, só veganos estúpidos não percebem.

Seguem-se mais algumas piadas sobre o destino terrível das alfaces (por que sempre as alfaces? Me faz recordar aquela corrente de email em que todo mundo pensa no martelo vermelho…). “Pelo menos o boi pode correr, seu vegetariano sádico!” Novos xingamentos, mais maldições e – o que mais me surpreende – pessoas (ainda) tentando argumentar numa “zona franca de argumentos”. Os carnívoros, do alto de sua douta sabedoria, proclamam-se os únicos aprovados (com louvor, certamente) nas aulas de interpretação (mesmo que sua redação seja sofrível). E, claro, condenam a agressividade dos vegetarianos. A sabedoria carnívora também desvelou há muito tempo que todo vegetariano é um hipócrita odiador de humanos protofascista e/ou adorador secreto de uma boa picanha. Com gordura! Com que prazer eles falam da camada de gordura da picanha! Num ponto eles realmente estão certos: não evoluímos muito desde os tempos dos primeiros hominídeos caçadores – e os evolucionistas ainda se questionam sobre a validade do conceito de atavismo?

Acusar o interlocutor de “fascismo” sempre ganha pontos nas pelejas virtuais. Especialmente quando você defende a existência de campos de confinamento onde seres sencientes são mutilados e engordados até a hora de terem sua jugular cortada para atender às frivolidades do paladar – não se esquecendo de aproveitar o couro para fazer roupas e almofadas, os ossos para fazer gelatina, e a tal gordura para fazer sabonete, dentre outras “utilidades” de uma carcaça que não pode ser desperdiçada. Definitivamente, as liberdades civis não podem sobreviver sem essa dose cotidiana de sangue, perversidade, abuso de poder. Afinal, não nos disse Oscar Wilde que “a civilização exige escravos” [1]?

Daí, como sempre depois de ler esses roteiros que fariam ruborizar Ed Wood, eu me pergunto: mas afinal, por quê? Alguns conhecimentos rudimentares de psicologia nos ensinam que a pessoa dependente de atenção não se importa se ela vem de forma elogiosa ou depreciativa. Desde criança aprendemos que “se você der corda à provocação, ela nunca vai acabar”.

Se um blog (ou coluna de jornal, ou mesmo cátedra de universidade) ganha destaque inaudito por uma determinada polêmica, a pessoa que procura antes a notoriedade que o conhecimento ou a coerência irá rapidamente encontrar naquilo seu “nicho de mercado”. É por isso que muitos polemistas que aparecem nos jornais, revistas, TV e, claro, na internet, começam com críticas tímidas, declarações cuidadosas, e até atitude respeitosa.  Quando se dão conta, porém, que falar mal de algum fenômeno da modernidade rende audiência (e dinheiro), eles atacam com todas as forças e cancelam os últimos vestígios de bom senso, pois o respeito é um crime imperdoável para o polemista.

A regra máxima do polemista é saber categorizar tudo e desmerecer qualquer discordância como “estupidez” e contestação como “ditadura do politicamente correto”. Essa última acusação é fundamental na sua estratégia . Ele precisa nos convencer de que está contra a corrente. Estar contra a corrente é inteligente. É cool. É cult. É in. (O polemista nunca perde a oportunidade de usar um termo em língua estrangeira. Inglês é bom. Francês é elegante. Se for latim, melhor ainda. O grande polemista usa os três – é quase um texto poliglota. Mesmo que os termos tenham similar na língua “vulgar” – o polemista nunca se limita ao vulgar.)

Mas o mais importante é: a crítica do polemista é sempre favorável aos poderosos. Sua independência jamais ataca os endinheirados. Sua inteligência enaltece os exploradores. Sua coragem nunca confronta os opressores. Afinal, esse papo todo de justiça social, direitos humanos, respeito pelos animais, veganismo e tal é conversa de gente sentimental, politicamente correta, desprovida de inteligência e, geralmente, de sexualidade desviante (o polemista tem uma mórbida fixação pela sexualidade alheia; ele não tem preconceito, as minorias é que não sabem brincar). E, claro, de fascistas. Você exige respeito, justiça e direitos iguais??? Ora, seu stalinista sádico! O único valor que o polemista preza é a liberdade. No caso, a liberdade de aprisionar, torturar e matar animais.

Um polemista é um predador feroz. Ele fareja sua vítima a quilômetros de distância, e seu ataque pode ser fatal. O problema para o polemista é: ele é previsível. Antever os seus passos dará a você a vantagem na perseguição. Polemistas são como as vacas: se eles puderem, irão matar você – então mate o polemista primeiro. De inanição. Por isso, ao vegetariano perdido no ciberespaço, fica meu primeiro conselho: faça o que fizer, nunca alimente um polemista.

O segundo conselho é: melhor que façamos nosso trabalho, divulguemos nossas ideias, apresentemos nossos argumentos. Existem muitos espaços que podemos ocupar antes de nos envolvermos numa batalha inglória com a inteligência do polemista – de tão inalcançável, ela me parece, na verdade, inexistente. Em terceiro lugar, não se esqueça: a primeira regra para conquistar o respeito é se dar ao respeito. Argumentos sempre ferem mais que xingamentos e maldições. Se você se sente impelido a pronunciar as últimas, deve ser porque não está suficientemente familiarizado com os primeiros. Então, antes de mergulhar num debate, mesmo que civilizado, sinta-se seguro de ter os argumentos para fazê-lo. Antes de convencer alguém a seguir seus ideais, você precisa saber exatamente em que eles consistem e quais seus fundamentos. Por isso, se você quer argumentar em favor dos animais, não se apresse: primeiro aprenda um pouco sobre nutrição, biologia, ciência e filosofia.

O que nos leva ao último conselho: a coerência não é um artigo de luxo. É necessidade básica. A sua incoerência pode e será usada contra você. Depois que você tiver aprendido um pouco sobre a causa que quer defender, ou seja coerente com ela, ou abandone-a, para o bem de todos. Um “defensor” dos animais que não é vegano não só faz mal a si mesmo, mas igualmente aos animais e à causa.

Por último, resta destacar que o culto carnivorista está se proliferando rapidamente. Logo ele não precisará mais vampirizar vegetarianos desavisados (e despreparados) na internet, pois está a ganhar ares de respeitabilidade intelectual (já andou sendo alardeado por alguns portadores do título de doutor). Suas armas, porém, são as mesmas: defender as liberdades civis de matar, torturar e oprimir; denunciar o fascismo totalitário de quem não respeita essas tradições tão nobres e populares.

Nosso conforto é que isso geralmente acontece quando uma ideia ganhou força o suficiente para não poder mais ser ignorada, e se tornou perigosamente subversiva. Certa vez disse John Stuart Mill: “todo grande movimento deve passar por três estágios: ridicularização, debate, adoção”. Pode levar 100 anos; pode levar 200 – o amanhã nos pertence.

[1]WILDE, Oscar. A Alma do Homem sob o Socialismo. Porto Alegre: L&PM, 2003, p. 44. Wilde foi ele próprio um grande polemista, mas de um tipo que não existe mais: aquele que realmente portava inteligência e desafiava as convenções do seu tempo.