Consciência animal: Algo ou “alguém” gritante


Anderson Reichow

Colunista do blog


Mas e as plantas? Pobres plantinhas! E o sofrimento da Dona Alface? Há tantos pontos mais delicados envolvidos na concepção vegana que falar na objeção das plantas promove numa dupla ridicularização: a primeira, quanto ao objetor, indica que ele não entende nada (mesmo) de senciência/dorência ; a outra, quanto ao vegetariano, quer denunciar a estupidez de quem não come carne por sugerir um desequilíbrio emocional capaz de tutelar até mesmo os “seres brutos”.

Para mim, ficaria muito fácil fugir do assunto:

“Se queres proteger as plantas, torna-te vegetariano! Sabes o que um boi come? R: plantas. Sabes quantos kilogramas de pasto “geram” um kilograma de boi? R: muitos (cerca de 10 vezes mais do que o necessário para alimentar “diretamente” um humano). Ou seja, se você come boi, está comendo boi + planta, o que, na suposta tese da dorência vegetal, seria uma dupla perversão.”

Mas a história é outra. A idéia que se quer veicular é a de que não há um limite seguro para estabelecer as fronteiras entre aquilo que definimos como titulares de direitos ou interesses, e aquilo que entregamos ao plano da coisificação. E com isso eu concordo.

Entretanto, essa reconhecida dificuldade se apresenta somente a partir de certos pontos. P. Ex.: um celenterado é merecedor de tutela? A resposta pode ser confusa. Todavia, por mais problemática que ela se manifeste, jamais teria o condão de lançar dúvida sobre a capacidade de sofrer que uma vaca ostenta. Uma ovelha é capaz de sentir dor, e não precisa ser etólogo ou veterinário para saber disso, nem um filósofo moral para protegê-los das calamidades por que habitualmente passam.

Se a esponja do mar sofre ou não, isso só é um problema quando alguém pensa em colocar em risco a sua integridade. Quando se trata, porém, de “animais de panela”, mesmo o homem mais ignorante é incapaz de lançar senões honestos em face daquilo que é, literalmente, gritante. Comecemos, então, por aí.


Anderson Reichow, 22, é estudante de Direito na UFPel e servidor da Justiça do Trabalho em Pelotas. Vegano e ativista pelos direitos animais, é membro-fundador do Defensores dos Direitos Animais. Coordena o blog do grupo (www.ddapelotas.blogspot.com), dedicado a reflexões sobre a condição animal.

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