AutoCrítica ao Movimento de Libertação Animal

PSEUDO-ARGUMENTOS
(CRÍTICA DOS ARGUMENTOS METAFÍSICOS, SENTIMENTALISTAS)

Debate de 10/03/2010 na Casa da Lagartixa Preta – Santo André

Muito da teoria do vegetarianismo se baseia em explicações vagas e incompletas e/ou carente de validez que longe de dar a esta postura ou caráter de algo sério e com firmes fundamentos racionais, fomentam uma imagem muito mais próxima a religiosidade, e sensibilidade exagerada e/ou profunda ignorância de quem os defende.

Naturalidade:
argumenta-se que o ser humano é vegetariano por “natureza” e portanto as dietas onívoras são “antinaturais”. O ser humano se adaptou a quase todos os habitats terrestres, coisa que não seria possível se nossa espécie tivesse uma natureza estritamente definida.
O fato de que uma espécie manifeste uma característica física ou psíquica determinada, não implica que outra, por mais próxima que seja em sua cadeia evolutiva, deva manifestar necessariamente a mesma característica. Por algum motivo são espécies diferentes.
Os gorilas (que são vegetarianos) deveriam ser carnívoros, pois seus dentes caninos tem um comprimento similar a dos animais caninos.
Se comenta que os animais carnívoros são agressivos (golfinho? Rã? Andorinha?) e os vegetarianos pacíficos (Elefantes? Rinocerontes? Hipopótamos?).

Saúde: quem centraliza seus argumentos a favor de uma dieta vegana em questões de saúde, o fazem a partir de uma perspectiva individual da saúde sem relacionar os fatores ecológicos e sociais. Relacionando a saúde com a quantidade de anos que vive e não com a qualidade ou jeito que se vive.
A influência de uma dieta na saúde individual depende de outras muitas circunstâncias ambientais, sociais, culturais e biológicas (exercícios, contaminação do meio ambiente próximo, equilíbrio afetivo, doenças hereditárias, etc). Segundo este foco individualista e simplista da saúde, para quem defende estes argumentos com a mesma lógica, se pode argumentar a favor do consumo de animais sem hormônios e com uma dieta balanceada ou consumo de peixes ou mel.

A vida como valor máximo:
estes argumentos baseiam-se no biocentrismo, o qual é um esquema psicocultural básico do sistema de dominação atual. Na prática este medo da morte serve para sustentar religiões e os sistemas de “segurança” com sua polícia e prisões. Considera-se a vida como boa em todos os casos (inclusive vida sem liberdade) e a morte como algo ruim. Desta forma gera-se uma falsa contradição entre vida e morte.
Por outro lado, quem defende uma ética biocentrista deveria não só não matar animais se não que tampouco deveria matar plantas, sementes, microorganismo, etc.

Evitar o sofrimento: o medo da dor é outro esquema psicocultural que sustenta ao sistema de dominação atual. Fazem-nos acreditar que nossas vidas giram em torno de dois pólos, a recusa da dor e a busca pelo prazer. Por exemplo, a indústria farmacêutica que nos sugere tomar comprimidos para dor de cabeça.
A dor tanto física como psíquica, é no princípio um mecanismo de alarme natural que possuímos. Sua finalidade é a de avisar de uma danificação mediante uma sensação desagradável que gere uma reação do animal para que ele possa evitar danificações maiores ou a repetição do mesmo futuramente. Portanto a dor é parte inseparável dos mecanismos de autodefesa, fundamental para viver de forma autônoma. O sofrimento desnecessário que se aplica sobre um animal (por exemplo em um circo) é conseqüência de um sistema de dominação (livremente, o animal escaparia ou atacaria seu agressor).
A maioria das vezes os argumentos “anti-crueldade” buscam leis, regulamentos, reformas, bem-estar que permitem consolidar ainda mais a causa desse sofrimento que é o sistema de dominação.

Sensacionalismo:
fazer sentir pena, repulsa ou culpa pelo maltrato de animais com fotos ou reportagens audiovisuais, slogans e discursos voltados para emoção, etc, só leva ao/a receptor/a, ou a fechar os olhos e tentar esquecer o assunto, ou a agir de maneira irracional, guiado/a por sentimentos induzidos por essas imagens e talvez a desenvolver mais sentimentos a partir dessa compaixão e/ou repulsa, sendo assim suas ações não se baseiam em argumentos racionais.
Por outro lado estes vegetarianos sentimentalistas deveriam lembrar que esta propaganda é uma faca de dois gumes, já que em uma sociedade existem pessoas tão doentes que longe de sentir repulsa pelo maltrato aos animais, gosta de sangue e violência, e as imagens que deveriam sensibilizar, acabam aumentando ainda mais sua morbidez (de fato, no fundo, surge uma dúvida de se alguns supostos animalistas não desfrutam também com elas, de tão freqüente que fazem seu uso).

Empatia: é um sentimento e portanto não tem nada a ver com racionalidade. Fala-se na primeira pessoa, e com isso quem baseia sua ética na empatia cai na subjetividade e no egocentrismo. Precisar colocar-se no lugar de uma suposta vítima para entender o supostamente mal de sua situação, é estender ao “eu” a outros objetos ou sujeitos, fazê-los próprios, reforçar e ampliar o “ego” no lugar de eliminá-lo. Identificar-se afetivamente com a vítima de uma aparente injustiça, não é valorizar dita injustiça de um modo objetivo e racional, se não suprir o vazio emocional. Empatizar-se com uma pedra não significa que a pedra sinta o que quem se empatiza com ela sente, que ela “sente” e menos ainda pode servir para dizer que não se deve “maltratar” as pedras.

Ecologia e socioeconomia:
critica-se a produção agropecuária quando em realidade seja ela industrial ou a que se realizava no neolítico, todas provocam danos aos ecossistemas “selvagens” e seus mecanismos de auto-regulação já que todas necessitam de dominação. Por outro lado a agroindústria que se propõe como alternativa, tampouco é menos destrutiva que a agropecuária, ecologicamente falando (monocultivos, agrotóxicos, déficit energético, etc).
Alguns argumentos “ecológicos” e socioeconômicos a favor do veganismo remarcam o fato de que a superfície cultivável do planeta poderia manter uma população humana várias vezes maior que a atual se todos fôssemos veganos. Tais argumentos, ainda que “verdadeiros”, não questionam nem a superpopulação, nem o desenvolvimento do sistema tecno-industrial, nem da civilização, nem dos problemas derivados disso, considerando o ser humano civilizado a única espécie valiosa, dona da terra ( antropocentrismo). Estes argumentos acarretam a idéia de que é social e ecologicamente viável e eticamente aceitável que sociedades de milhões de pessoas se apossem de tudo, a custa de pequenos grupos humanos, do resto das espécies e de seus habitats naturais.

Argumentos religiosos: dada a ambivalência dos “textos sagrados”, sempre servem tanto para “justificar” o vegetarianismo como defender o contrário.
No discurso de muitos veganos aparecem com muita freqüência alusões a conceitos metafísicos e religiosos tais como a reencarnação, o karma, vontade divina, força vital, posição dos astros, vibrações, etc. Toda a força do discurso baseado no uso deste tipo de terminologia se baseia na fé e na irracionalidade. É preciso acreditar no que se diz, não há razões, não há fatos nem evidências.

Parentesco e amizade:
os animais não são nossos familiares, nem amigos (nem precisa que sejam/sejamos). Do mesmo modo que a maioria dos humanos não são nem parentes, nem amigos entre si. Será que só é possível respeitar a quem se tem uma relação afetiva ou se é da família?

Idolatria:
que relação tem a música, o cinema, a física da relatividade com ser ou não vegetariano? Que tipo de argumentação a favor do vegetarianismo é ser bonito, tocar guitarra ou ser cientista?
Reverenciar a alguns nomes famosos desvia a atenção aos personagens ao invés das ideias que eles expressam. Cria-se uma aura de fascinação ao redor de tais seres que inibe toda a reflexão crítica sobre o que dizem, fazem ou representam por parte de quem recebe a mensagem sem questionar tais autoridades.


MERCADORIA E LEI
(CRÍTICA AS POSTURAS LEGALISTAS E CONSUMISTAS)

Debate de 17/03 na Casa da Lagartixa Preta – Santo André

O capitalismo tem o poder de absorver as lutas. O ingênuo movimento pela libertação animal pede mais produtos vegetarianos e mais controle do Estado para com os especistas.

Uma das maiores falhas que o movimento de libertação animal possui é a escassa relação deste movimento com outras causas igualmente anti-autoritárias. Ainda que no discurso se relaciona o especismo com o sexismo e/ou racismo, e ao falar de libertação animal se fala que esta inclui a libertação humana e da terra, na verdade é que na prática muitos veganos alegrariam-se se multinacionais como o Mc Donald’s incluísse em seu cardápio hambúrgueres de soja.

Tanto no discurso como na prática de muitos veganos se pode observar não só uma falta de crítica se não até uma esperança no atual sistema, acreditando que a abolição da escravidão animal se pode alcançar (leia: capitalismo verde), neste sistema de dominação. Paralelamente se consolida um mercado alternativo de perfumes, cosméticos, restaurantes, sapatos, presuntos e queijos de soja, bandas musicais, etc, 100% “livre de crueldade”.

Sendo uma testemunha da crescente cumplicidade entre o consumismo/sistema capitalista e o veganismo, Gilles Dauvé em sua “Carta sobre a Libertação Animal”, escreveu:

“Porque entre os jovens urbanos do ocidente, no princípio do século XXI, se repugna a visão de um homem vestido de caçador disparando em coelhos e patos?

A preocupação pela natureza, por questões ecológicas e as reações ao abuso de animais não são sintomas de que a humanidade enfim está se conscientizando de seu impacto sobre o resto do planeta, se não de que o capital precisa pensar globalmente, levando em conta o passado e o presente, desde os templos Maias até as baleias e os genes. Tudo o que o capital domina deve ser controlado e classificado para poder ser administrado. Tudo o que se pode comprar e vender deve ser protegido. O capital possui o mundo e não há proprietário que não seja mais apreensivo com suas posses.

No princípio do século XIX a burguesia explorou fortemente a vida e a força de trabalho de milhões de trabalhadores. Em parte, graças as ações desses mesmos trabalhadores, essa exploração se foi fazendo cada vez menos destrutiva e mais rentável. Mesmo assim, hoje em dia o capital não pode continuar esbanjando tranquilamente milhões de macacos ou árvores.

… (atualmente) não existe fome nem massacres como em 1900 ou 1945. A dieta entre os trabalhadores é hoje em dia mais rica e balanceada que na época de Marx; se tem tanto acesso a comida industrializada como a diversões ou viagens industrializadas. A expectativa de vida segue aumentando (e a mortalidade infantil diminuindo). O que hoje em dia é pior que em 1948, 1917 ou 1945, é que nunca antes tantos seres vivos foram convertidos em dinheiro, ou em processos que envolvem dinheiro. Nunca antes os seres humanos foram tão dependentes de algo que está por cima deles… até agora, tão incapazes e sem vontade de mudar a situação.

As condições humanas e animais estão piorando, mas só no sentido de que tudo está sendo capitalizado. Assim, os horrores mais invisíveis cometidos contra humanos e animais, estão somente aparentemente transformando-se em menos horríveis.

Que o capital mutila e humilha aos seres humanos, e mata a milhões de animais, é verdade. Mas aí onde o capital se desenvolve e chega a ser “puramente” capitalista, se distancia cada vez mais da tortura e da violência aberta. Igual a exploração animal, a discriminação sexual e racial formam parte do capitalismo. Com freqüência os supera e os substitui com formas melhor adaptadas. Manifestações de racismo informal ou institucional reaparecerão sempre em algum país capitalista, mas em nenhuma parte o racismo é imprescindível para o capital.

O capital toma a vida (em todas suas formas, desde o trabalho humano, árvores e vacas, até contos infantis e emoções), a produz e a desenvolve transformada. Nisso se diferencia de todos os sistemas de exploração anteriores. Nisso estabelece sua força. Diferente de um vampiro, o capital nos suga a energia, mas nos mantém vivos e nos faz crescer, produzir, comprar e cumprir um papel. A produção de valor e o consumismo funcionam porque somos seus agentes ativos e passivos.

O capital depende do abuso, do confinamento e da repressão, mas sua essência não é mais violenta que não violenta. Trata com dureza quando tem que fazê-lo, e com suavidade quando lhe é conveniente.

Em 1830 era necessário obrigar crianças de 5 anos a trabalhar doze horas diárias, mas como mostra a história, tais práticas não definem os interesses empresariais. Lutar por formas de exploração não violentas só contribui para desviar a opressão de um nível a outro. A fabricação de comida sintética está permitindo ao capital fazer realidade de uma maneira monstruosa o sonho da bioalimentação.

Não se pode parcializar, priorizar ou dividir as lutas, não podemos ser tão ingênuos para exigir (ou lutar por) nossos desejos de igualdade de forma ilhada. Uma sociedade sem especismo (ou sem racismo nem homofobia) não garante a reapropriação de nossas vidas nem a libertação de nada, se é que por liberdade entendemos a autoregulamentação de todas as formas de vida, isso é, naturalmente, sem dominação nem competição.

… Mas, por acaso não é porque os humanos pioraram depois de começarem a ser tratados como objetos, que os animais e plantas foram coisificados também? Se criticamos a indústria do automóvel não é porque ela está vinculada com o modelo dos matadouros. Se criticamos o capitalismo, é porque a produção de valor transforma tudo, seja a carne ou a poesia, em mercadoria. Deste ponto de vista, não tem sentido exigir que exista mais poesia (ou tofu) e menos hambúrgueres. Enquanto ambos produtos rendam benefícios, as fábricas seguirão fabricando.

Podem existir fábricas de qualquer coisa. É a sociedade da linha de produção que temos que entender e revolucionar, independentemente de que esteja manufaturando carne empacotada, pão ou televisores.”

Alguém também se expressou hommodolars.org

“… é muito comum ver na imensa maioria das organizações de direitos animais sua incapacidade de romper com a mísera realidade das relações capitalistas. Talvez não o queiram fazer. Talvez se sintam bem com seu modo de vida – os indivíduos – de trabalhar ou estudar, consumir, divertir-se e para sentir-se bem, ajudar os animais. Podem existir muitas razões, mas há algo inegável que seria bom alguma vez levarem em conta: o modo de exploração dos homens e mulheres e a conseqüente mercantilização da vida humana se transpassa igualmente aos animais, portanto não é uma conduta própria do ser humano mudar para uma conduta respeitosa e distante ao especismo, se não, que a erradicação desta realidade passa exclusivamente pela superação do CAPITALISMO ou qualquer tipo de sistema social e econômico que coloque os lucros, benefícios, poderes e luxos acima da liberdade individual. Isso é a destruição da Sociedade de classes.

(…) O problema dos animais não é que precisem ser tratados melhor.Não é que o cavalo apanha para puxar uma charrete. Não é que os animais sejam esterilizados ou não. Não é que exista uma legislação que tipifique como coisas. A pergunta que nos deveríamos fazer é que condição faz possível que tudo isso aconteça? A resposta é a mesma de sempre: a exploração do homem, mulher, criança, árvore, mar, animal.”

Devido, talvez, a frágil crítica que o movimento pela libertação animal faz das estruturas de dominação em seu conjunto, é comum ver animalistas exigindo leis, sanções e regulamentos ao mesmo aparato judicial que protege e reproduz a dominação. O texto intitulado “não se pode legislar a liberdade” do folheto “A Falsa Oposição da Libertação Animal” é muito claro a respeito:

“Alguns acreditam que se deveriam proporcionar direitos legais e proteção aos animais. Aplaudem as proibições de brigas de galo, porque se observa como uma ajuda aos animais e um acréscimo a suas vitórias. Mas criticam as leis que protegem os negócios que usam animais. Por um lado aceitam a lógica do Estado, uma vez que existem leis, e por outro, ignoram que o sistema legal regula a sociedade, fazendo-o eficiente, disciplinada e controlável. As leis validam o controle social ilegalizando os ingovernáveis e protegendo os poderosos.”

O Estado protege as indústrias de animais e outras empresas capitalistas; esta é a coluna vertebral e a força bruta do sistema capitalista. A lei criminaliza qualquer um que se oponha ao suave funcionamento do capitalismo. Os códigos legais mantêm as relações sociais de capitalistas; o conceito de propriedade e seus bens são santificados. Qualquer abaixo-assinado por leis intensifica o poder do sistema legal e sua mitologia de justiça legal e moral. Ter fé nas leis é ter fé na exploração capitalista, reforçada por policiais, burocratas, juízes e legisladores. Eles não têm nenhum interesse em mudar a ordem social, da qual obtém benefícios. Fazer uma lei que proíba a crueldade animal aqui, ou uma lei contra a presença de animais nos circos ali, supõe uma mudança insignificante, apesar de que alguns digam que são vitórias. As indústrias de produção continuam levando mais e mais animais aos matadouros. A miséria continua e o aparato legal assegura isso.

Se quisermos tirar os animais do degradante sistema de produção que estão submetidos, teremos que recusar qualquer suposto remédio oferecido pelos mecanismos eleitorais e legais do Estado.

Adendos:

*Etimologia

A palavra capitalismo vem do latim caput, uma referência às cabeças de gado que definiam um homem rico. E pecuária tem a mesma raiz de pecunia, latim para “dinheiro”.

Desafios do modo de vida vegano – Sônia T. Felipe 14/03/2010

12. Dos governantes não há o que esperar na defesa dos direitos fundamentais dos animais, pois a maior parte deles é eleita pelo agronegócio. Via de regra, todo governo é movido pelo capital. Quando se trata de atender à vida em desgraça, especialmente se a desgraça afeta milhões de indivíduos, os governos não sabem o que fazer. Isso vale para a desgraça dos milhões de humanos abatidos por forças às quais não podem fazer frente, tanto quanto para a de bilhões de animais abatidos por forças igualmente avassaladoras. 

Abolição – Confronto-RJ

Acorrentados estamos, presos sempre estivemos
Resistindo, corpos putrefatos,
Alma morta, renascendo
Nosso povo esquecido, oprimido e fuzilado!
Sobrevivendo ao ciclo da morte!
Irmãos e irmãs, humanos e não humanos!
Destroçados e aniquilados pelo Estado!
Corpos no chão, despedaçados.
Sempre estivemos presentes!
Senzalas, Chiapas, Sem Terras,
Negros, Índios e Pobres.
Industria da morte, do sangue nos abatedouros.
Morte dos terráqueos que habitam a terra!
Interligados e relacionados ao processo matador.
Planeta morto!
Senzalas, Chiapas, Sem Terras
Negros, Índios e Pobres,
Industria da morte, do sangue nos abatedouros
Morte dos “terráqueos” que habitam a terra!
Mercadorias que alimentam o ciclo da escravidão.
Correntes abertas, jaulas vazias
Terras ocupadas. Abolição!

POSSE DE ANIMAIS
(CRÍTICA DA ESTERILIZAÇÃO, DOMINAÇÃO, ETC)

Debate de 24/03 na Casa da Lagartixa Preta (Santo André)

ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO
Fala-se que o veganismo não é só uma dieta e, portanto que este é sinônimo de ativismo. Muitos veganos ativistas dedicam seu tempo e dinheiro ao trabalho com animais abandonados. Quer dizer: fazer campanhas de conscientização para os donos de animais (bom trato dos animais de estimação, o não abandono dos mesmos, etc), campanhas de vacinação, esterilização e campanhas de adoção.
Diante do imediatismo do sofrimento de um ser abandonado, geralmente se recorre ao assistencialismo e a campanhas legalistas mas nunca é criticado o fato de ter animais.
Segundo a publicação “Posse de animais de estimação: dominação com rosto humano” do grupo ALLIUM, a posse de animais é um problema em si mesmo e se deve a dois fatores: o ímpeto dominador e a auto-complacência egoísta e irracional. A primeira tem a ver com uma projeção da dominação onde o controle de outros seres (crianças, mulheres, animais) funciona como uma “válvula de escape” para a frustração gerada pela própria hierarquização que o sistema social dominador impõe aos humanos, estabelecendo e mantendo assim longas e complexas espirais de dominação. A auto-complacência é a outra razão pela qual os seres humanos possuem animais de estimação. Isso significa que os animais são “almofadas” sob as que descansam a própria consciência para tentar suprir carências afetivas e o hedonismo humano é tanto, que se prioriza o prazer individual sem levar em conta a liberdade dos demais nem os problemas que desta posse de animais se derivam.
Alguns dos principais problemas da posse de animais são:

Produção Capitalista:
o negócio multimilionário é cada vez maior ao redor da criação, venda e manutenção de animais de estimação que leva consigo um florescimento de pet-shops, clínicas veterinárias, empresas dedicadas a produzir e comercializar comida e materiais para animais de companhia, etc. Estas empresas também se encarregam de manter a demanda de animais de estimação por parte da população, mediante táticas publicitárias de todo tipo, incluído a criação de campanhas protecionistas.

Superpopulação:
cada vez é maior o número de animais de companhia, o que gera por sua vez, uma série de problemas que irão agravando-se paulatinamente no futuro, na medida em que o número destes animais cresçam. Alguns destes problemas são: sujeira, ruídos, acidentes, ataques, abandonos, asilvestramento e destruição de equilíbrios ecológicos, etc.

Consumo de produtos de origem animal:
muitos animais de estimação são animais de tendência alimentar natural carnívora ou onívora, e conseqüentemente precisam ser alimentados com produtos animais que procedem da pecuária ou pesca, fomentando assim a dominação que ambas representam hoje sobre outros animais, sobre o planeta e inclusive sobre os seres humanos.

A insensibilização em relação aos outros animais: a posse de animais de estimação desvia a atenção sobre umas poucas espécies domésticas consideradas mais próximas ou “humanizadas” (antropomorfismo), gerando indiferenças, tranqüilizando consciências e ocultando inclusive a realidade da dominação que nas mãos de boa parte dos seres humanos sofrem outros animais domésticos ou selvagens (vivissecção, pecuária, etc).

Estímulo à vivissecção:
os animais de estimação precisam de cuidados médicos que se supõe ser a razão da existência da veterinária, a qual baseia boa parte de seus métodos na experimentação com animais.

Desumanização das relações entre seres humanos:
uma das finalidades da posse de animais é a de “satisfazer” as necessidades afetivas das pessoas, substituindo em muitos casos os humanos neste papel. Assim os problemas de ilhamento, egocentrismo, falta de comunicação e os muitos desequilíbrios psicológicos relacionados com eles se vem potenciados, entre outros motivos, por esta zoofilia que esconde os sintomas destes problemas impedindo sua verdadeira solução. Enquanto isso, esses problemas crescem e distorcem as relações humanas e sociais.
Adendo
Muitos materiais de divulgação para campanhas de adoção de animais abordam o tema utilizando termos como posse responsável de animais”ao invés de guarda responsável de animais”, assim reforçando os animais como propriedade. Não é surpresa encontrar termos como “donos” e“seja um proprietário responsável”.
A maioria dos materiais de defesa sobre a castração aborda temas que refletem valores sociais de dominação como “a não perda da masculinidade” para os machos, também reforçam a serventia do animal como “um bom cão de guarda”, defendem “passeios controlados” e os“bons modos humanos” como a mudança de comportamento dos animais dizendo que assim esses animais são “mais contentes e comportados”tendo uma “melhor convivência em casa”. Por muitas vezes mostra o comportamento dos animais como verdadeiros empecilhos e constrangimentos para humanos. “Fêmeas e machos mais limpos”“menos barulho” são exemplos de termos comuns utilizados pela defesa de castração.
Também é muito vendida a idéia de que adoção e castração é a única maneira de se resolver os problemas de abandono, fome, sede, frio, dor, mortes e maus-tratos, ficando alienadamente limitado apenas sob a visão da ponta de um iceberg.
“Posse” Responsável: responsável sim, mas posse?
por Renata de Freitas Martins
Jurídico Associação Santuário Ecológico Rancho dos Gnomos
www.ranchodosgnomos.org.br/boletim/colunajur20.htm
.
Ninguém é dono/proprietário de um animal
http://www.uniaolibertariaanimal.com/mitos/ninguem-e-dono-proprietario-de-um-animal

AÇÃO DIRETA E PIPOCA
(CRÍTICA A ESPETACULARIZAÇÃO DOS “SALVADORES” DE ANIMAIS)

Debate de 31/03 na Casa da Lagartixa Preta (Santo André)

“…para não deixarmos levar e deslumbrar pela espetacularização e vitórias (medíocres para nós) de grupos que só se preocupam por resgatar alguns animais (dá no mesmo que sejam 100.000) e não por acabar com a domesticação da vida.”

Igual a esquerda com o “Che”, o movimento de libertação animal tem seu próprio ícone estampado em camisetas. Ainda que este seja sinônimo e não tão famoso (ainda), supera em bizarrice, já que sua figura é idêntica a do outro “salvador”. Estou falando da imagem do anjo libertador: um encapuzado com azas que abraça um animal recém resgatado da mesma forma que Jesus carrega um cordeiro entre seus braços.
O seguinte fragmento do texto “A Falsa Oposição à Libertação Animal”, não só critica a caridade dos ativistas (resgatar um cachorro de um laboratório não é muito diferente de adotar um cachorro abandonado) se não que também a espetacularidade das ações diretas e o fato de não atacar o sistema de dominação em sua totalidade, se não exclusivamente as instituições que dominam aos animais não humanos.
…existem grupos e campanhas pela “Libertação Animal” fora do marco legal, e inclusive autodenominadas anarquistas, que não se escapam da moral cristã evidenciada em formas altruístas e caridosas, estabelecendo uma imagem de salvadores de animais demonstrando assim seu especismo (já que para que alguém salve ao outro, este último necessariamente consente um papel de inferioridade) e convertendo-se de forma egocêntrica (e egoísta?) em mártires de sua luta, como é demonstrado na grande quantidade de entrevistas e/ou homenagens a seus heróis. Óbvio que existe uma grande espetacularidade em torno dessas lutas, se não, como explicamos tantas fotos dos salvadores encapuzados com seu animal libertado nos braços (claro fetichismo do troféu), outras muitas são gravadas em vídeos e divulgadas sem nenhum conteúdo explicitamente informativo. Estes se limitam a mostrar a alguns encapuzados abrindo jaulas com uma bonita e épica banda sonora. Acreditamos que seria mais ilustrativo explicar as precauções e os aspectos práticos que são necessários para realizar bem uma ação. O nível de sensacionalismo é abismal: animais maltratados, torturados, humilhados, assassinados, violados, vendidos só para sensibilizar as pessoas comuns e ganhá-las aproveitando-se de sua compaixão sob frases como “pobres animaizinhos!”. Onde foi parar o restante do discurso? Consideramos que foi perdido. A totalidade do discurso tem-se reduzido a uma ínfima parte.
O que sim é verdade, é que a luta pela “libertação animal” consegue um grande número de vitórias, o qual é muito importante e positivo. Mas cuidado, porque se pode converter em uma faca de dois gumes. Por um lado se pode levantar o ânimo de outras pessoas para que se somem a esta luta, mas por outro pode levar a uma comodidade por parte dos ativistas, que satisfeitos por essas conquistas não se propõem novas formas de lutas e muito menos novos conteúdos, nem aprofundamento nos já existentes.

A sabotagem e destruição das indústrias animais podem ser dirigidas contra a conversão de animais em produtos. Mas, em alguns casos, quando estas ações são feitas com o objetivo de libertar animais, é reproduzida uma prática que somente se preocupa com os animais não humanos. Por exemplo, muitos comunicados de ataques a laboratórios de vivissecção se concentram somente na opressão dos animais não humanos, às vezes em termos morais, enquanto ignoram todos os aspectos exploradores e desagradáveis dos laboratórios de investigação das universidades ou das companhias farmacêuticas. Ao invés de romper com as fronteiras que nos impedem um entendimento da dominação social, ações como estas constroem e promovem perspectivas limitadas que não levam em consideração as causas profundas que fazem dos animais produtos. Assim mesmo, o potencial dessas ações é debilitado pelo confinamento em um só tema ao invés de ser um ato de solidariedade ligado a outras lutas sociais. Ainda que existam pessoas que libertam animais e sabotem negócios da exploração animal sem reivindicar suas ações como ações do movimento de libertação animal. Isto não deveria passar despercebido, já que são positivas porque não se moldam em si mesmas como relevantes para um aspecto da dominação, se não que são ataques a uma de suas formas. Se vemos exploração e dominação por todos os lados, não devemos limitar-nos, devemos atacar onde as encontremos.

O chega-pra-lá da certeza exagerada da própria virtude
por Tom Regan – Jaulas Vazias de 2004 (p. 232-234)

Alguns relutantes são desencorajados pela certeza exagerada da própria virtude com que se deparam: “Sim, direitos animais é uma nobre idéia”, dizem eles, “mas veja o que essa idéia faz com as pessoas; faz com que elas pensem que são tão boas, tão puras. Quem quer ser assim?” Eu consigo me identificar com essa reação. Conheço alguns defensores dos direitos animais que se acham tão virtuosos que eu até desvio do meu caminho, só para não ter de lidar com eles.

(…) eu conheço alguns desses defensores que querem que você saiba o quanto você é mau e o quanto eles são bons, quando se trata das roupas que vestem e dos sapatos que você calça. Quer dizer, eu conheci alguns que podem soltar fogo pelo nariz na cara das pessoas que não se vestem direito.

Os defensores dos direitos animais que se comportam dessa maneira não vivem no mundo real.

A idéia é que “os corpos de literalmente bilhões de animais são intencional e deliberadamente feridos a cada ano”, “a liberdade de centenas de milhões de animais é intencional e deliberadamente negada a cada hora” e “a própria vida de dezenas de milhares de animais é intencional e deliberadamente tirada a cada minuto” por causa da indústria das peles, couro ou lã.

Mas veja o algodão, por exemplo. Por causa dos produtos químicos que são aplicados ao algodão, levados pelas águas, matam peixes e outros animais. E ainda outros animais são mortos quando lavradores mecanizados preparam o solo para o plantio.

Quanto aos sapatos e cintos feitos com couro falso (sintético): são sub-produtos da indústria petroquímica. Isso significa derramamento de óleo, e números incontáveis de animais feridos e mortos.
Portanto, não: os defensores dos direitos animais não têm razão para se considerar perfeitos exemplos de virtude, como se o mundo fosse dividido entre Puros (esses seríamos nós) e Impuros (esses seriam o resto da humanidade). Moralmente, somos todos matizes de cinza. (…) nenhuma pessoa sozinha fala em nome de todos os defensores.


Textos transcritos por: Fabio (ƒαвiü ∞)

Debates sobre o encontro

Encuentro por la Liberacion Animal – Enero 2010, Uruguay

com  o tema:

Autocrítica del movimiento vegano

Encuentro por la Liberacion Animal

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2 responses to this post.

  1. Desculpa, mas pra mim, ao abrir a pagina, deve estar faltando alguma informação. Autocritica deveria ser uma critica sobre si mesmo, e, pelo que vi, o redator do texto não é vegetariano nem sente o que um vegetariano sente. As causas e argumentos dos vegetarianos e veganos não são vagas. Pelo contrário, a realidade exposta pelos ativistas, são tão verdadeiras quanto qualquer outra verdade que pessoas covardes preferem não ver!!

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