O problema do discurso vegano antiaquecimento global

Dennis Zagha Bluwol – Ecoveganismo

Em meu último texto postado neste site, defendi a união do pensamento vegano ao pensamento ecológico. Neste momento, torna-se necessário fazer um porém para que o que eu disse (a necessidade de pensar o veganismo de forma ecossistêmica) não seja entendido como outra prática comum nos discursos veganos: bater na tecla de assuntos como impactos ambientais da pecuária, aquecimento global, etc.

Nesta segunda-feira de carnaval, 15/02/2010, assistindo no programa Roda Viva da TV Cultura a uma entrevista com Carlos Nobre (climatologista do INPE), uma questão que precisamos ter em mente foi discutida.

Quando perguntado sobre as relações da pecuária com o aquecimento global, Nobre elencou com a maior naturalidade mudanças tecnológicas que diminuiriam a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera, além de outros impactos ambientais. Uma delas: aumentar a densidade de bois por hectare na pecuária extensiva (que é a praticada no Brasil). Outra: “aprimorar” geneticamente as rações e os animais para que estes cresçam mais rapidamente e possam ser mortos com menos tempo de geração de impactos. Ainda outra: em locais de pecuária intensiva, como no Japão, para diminuir a emissão de metano, os animais ficariam confinados durante toda a vida em uma edificação fechada e todos os gases emitidos seriam canalizados para a produção de energia.

Sim, aí está a resolução para todos os problemas criados pela tecnologia: mais tecnologia. Nunca ética ou direitos.

Acho que é preciso que pensemos que, quando batemos na tecla dos impactos ambientais da pecuária, estamos alimentando um tipo de discurso que será um tiro no pé a cada vez que esta indústria realizar alguma mudança tecnológica (e seu respectivo marketing em propagandas e jornalismos pelo mundo). Se eles neutralizarem emissões de gases estufa e diminuírem os impactos da pecuária extensiva confinando o gado ao máximo em ambientes controlados, não só seremos motivo de chacota por parte da opinião pública, mas teremos feito o trabalho de marketing prévio dos problemas atuais resolvidos pela tecnologia do futuro próximo (e estão trabalhando seriamente nisto, pois não só é bom para o marketing ecológico, mas aumenta os lucros da produção). Assistiremos à imposição de mais confinamento e sofrimento para os animais de forma que a massa (já que há tão pouca diversidade de opiniões na opinião pública) a ache positiva, já que o gado começa a ser tido como o grande culpado pelo aquecimento global.

Tenho pra mim que o aquecimento global antrópico é mais uma agenda política e econômica do que uma questão ambiental. E mais: tira o foco de questões ambientais muito importantes e já existentes, destruições, poluições etc., que necessitariam de uma mudança radical em nossos modos de vida, um corte com nossa maneira de consumir, com os valores hoje tidos como os desejados. Não é difícil entender o porquê de o aquecimento global ser tão propagandeado em noticiários, mídias de todos os tipos, assunto de ônibus, botecos e universidades.

Não podemos entrar nessa de repetir os discursos midiáticos planetários tentando usá-los a nosso favor. Possuímos discursos e argumentos muito mais sensatos e profundos. Assim, quando proponho entender o veganismo de forma ecossistêmica, é bom que fique claro que isto não significa entrar em qualquer discurso existente sobre a questão ambiental de forma acrítica, sem ver quem é que está produzindo o discurso, quais podem ser os objetivos.

Continuar divulgando a questão do aquecimento global como uma forma de ativismo pró-vegetarianimo leva o público a pensar que, se aparecer no jornal que a pecuária está virando mais “ecologicamente correta” (talvez o discurso com mais força no marketing contemporâneo), então nós é que estávamos errados, apenas reclamando sem motivo.

É preciso que se denuncie, sim, a barbárie ambiental da pecuária, assim como de qualquer outra indústria. Mas talvez não seja interessante que usemos isto como argumento contra o consumo de carnes. Vamos nos concentrar naquilo que é, de fato, nossos motivos éticos, e construir um modo de perceber o mundo e nele conviver realmente diferente, baseado em outros valores, outras necessidades, sem tentar entrar de carona em processos que servem a interesses realmente antagônicos por parte de pessoas e corporações realmente antagônicas.

Fica aí, então, pelo menos esse rápido alerta para que possamos refletir.

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One response to this post.

  1. Posted by Murillo on Setembro 24, 2015 at 13:57

    Excelente texto. Não havia ainda pensado nessa questão da tecnologia poder “resolver” a emissão de metano dos animais e piorar a situação deles confinado-os ainda mais ao invés de libertá-los. Realmente nosso foco principal deve ser a questão ética que se alimentar de carne significa torturar uma criatura durante toda a sua existência e no final matá-la. Achei o documentário cowspiracy impressionante por mostrar a pecuária como a maior vilã ao meio ambiente, mas como foi bem exposto no texto, não podemos subestimar os interesses econômicos astronômicos que giram em torno dessa industria a ponto de sermos surpreendidos em breve com uma “solução” nazista para a questão da pecuária e a indústria de produtos animais em geral.
    Uma questão seríssima que deve ser meditada por nós que nos importamos com esses nossos irmãos e sofremos o sofrimento deles.

    Responder

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