Posts Tagged ‘seres sencientes’

Abolicionismo Animal

Texto sobre Abolicionismo Animal feito para a apostila do 1° Educaveg – reunião de veganos, vegetarianos e onívoros de Assis e região, realizada pelo coletivo V.I.D.A. (Veículo de Intervenção pelo Direito Animal) em conjunto com a Fábrica da Leitura

Assim como o racismo afirma a superioridade de um grupo racial sobre outro, e o sexismo a superioridade de um sexo perante outro, o termo ESPECISMO significa julgarmos uma espécie superior a outra. Na escravidão animal, o especismo qualifica e justifica a exploração de animais não-humanos por animais humanos. Assim como os brancos tentaram impor-se sobre os negros (racismo), ou os homens sobre as mulheres (sexismo), hoje nós, humanos, tentamos nos impor sobre outras espécies de animais não-humanas. Tornando-as simples objetos e mercadorias, sem valor inerente, ou seja, o valor de suas vidas está diretamente relacionado ao uso que nós fazemos dela. Deixamos, portanto, de considerar o interesse desses animais em sua própria vida e liberdade. Continuar a ler

Os animais têm que permanecer amarrados

por Marcio de Almeida Bueno

Pois os humanos têm o estranho fascínio de conter os animais não-humanos, acorrentar, acoleirar, prender, confinar, amarrar, colocar grilhões, cabresto, para impedir a livre movimentação. Para impedir que vá embora. Para manter dentro das fronteiras de sua propriedade. Para a ave que ainda pode escolher a rota de vôo, e especificamente pode voar, há uma que vê o mundo através das gradezinhas de um aquário – uma gaiola, olho como o derradeiro fiapo de liberdade. Cardumes rodam sem mapa de navegação, mas os atuns já ganharam seu chiqueiro, para que não saiam das bordas de um proprietário, tolhidos da possibilidade de, oceano extenso, ir em frente. Mas não se permite. Continuar a ler

Predadores e vampiros de vegetarianos

Direitos Animais

por Bruno Müller


Vez por outra recebo por intermédio de algum amigo vegano um link de mais um daqueles inúmeros textos que circulam na internet de carnívoros exercitando sua fina inteligência a ironizar vegetarianos e enaltecer o gene humano caçador. Não gosto de repassá-los para não alimentar a psicose alheia. Nem é preciso, pois quem já viu um, já viu todos. É sempre a mesma ladainha que sempre passa, invariavelmente, pela “vida secreta das plantas”. São os populares“alfascistas”. São, muito coerentemente, predadores e vampiros que se alimentam da atenção, raiva e bílis de vegetarianos desavisados.

Parece roteiro de filme B (ou C? ou Z?). A mesma fórmula batida com o mesmo enredo. Alguém descobriu que o tema “ode à carne” desperta a ira dos vegetarianos e, desde então, “jornalistas” sensacionalistas ou blogueiros carentes têm usado do artifício para suprir suas necessidades afetivas com um pouco de atenção negativa. E o filão não para de crescer, alimentado pela boa audiência de defensores de animais indignados. Os vegetarianos mordem a isca (pode ser especista, mas me parece uma analogia muito adequada!), e a trama segue o roteiro preestabelecido: uns xingam, outros amaldiçoam e alguns poucos até tentam falar sério – numa situação em que a seriedade só entra no enredo como “escada” para mais alguns exercícios de sarcasmo e humor “refinados”. Alguns carnívoros também se manifestam. Geralmente eles estão voltando de, ou partindo para, um churrasco. Sendo o Brasil o terceiro país do mundo em consumo de carne, não tenho motivos para duvidar da veracidade de suas alegações.

Toda trama bem-sucedida tem sua sequência, claro. O “escritor”, inebriado pela fama, começa amaldiçoando a educação no país – seus leitores formam uma massa de analfabetos funcionais incapazes de captar seu humor “inteligente”. Se a maioria discorda de você, está óbvio que é porque não sabe ler nem interpretar. Polemistas em geral sempre respondem aos seus críticos com uma condescendente acusação de estupidez e semianalfabetismo que, claro, lhes exime completamente da necessidade de responder às tais críticas com argumentos plausíveis. E se os fatos desmentem o polemista – pior para os fatos. Ele simplesmente os ignora. E eu, com minha limitada inteligência de vegano subnutrido, não consigo entender como pessoas tão inteligentes repetem sempre os mesmos axiomas que não requerem provas ou argumentos – até porque são autoevidentes, só veganos estúpidos não percebem.

Seguem-se mais algumas piadas sobre o destino terrível das alfaces (por que sempre as alfaces? Me faz recordar aquela corrente de email em que todo mundo pensa no martelo vermelho…). “Pelo menos o boi pode correr, seu vegetariano sádico!” Novos xingamentos, mais maldições e – o que mais me surpreende – pessoas (ainda) tentando argumentar numa “zona franca de argumentos”. Os carnívoros, do alto de sua douta sabedoria, proclamam-se os únicos aprovados (com louvor, certamente) nas aulas de interpretação (mesmo que sua redação seja sofrível). E, claro, condenam a agressividade dos vegetarianos. A sabedoria carnívora também desvelou há muito tempo que todo vegetariano é um hipócrita odiador de humanos protofascista e/ou adorador secreto de uma boa picanha. Com gordura! Com que prazer eles falam da camada de gordura da picanha! Num ponto eles realmente estão certos: não evoluímos muito desde os tempos dos primeiros hominídeos caçadores – e os evolucionistas ainda se questionam sobre a validade do conceito de atavismo?

Acusar o interlocutor de “fascismo” sempre ganha pontos nas pelejas virtuais. Especialmente quando você defende a existência de campos de confinamento onde seres sencientes são mutilados e engordados até a hora de terem sua jugular cortada para atender às frivolidades do paladar – não se esquecendo de aproveitar o couro para fazer roupas e almofadas, os ossos para fazer gelatina, e a tal gordura para fazer sabonete, dentre outras “utilidades” de uma carcaça que não pode ser desperdiçada. Definitivamente, as liberdades civis não podem sobreviver sem essa dose cotidiana de sangue, perversidade, abuso de poder. Afinal, não nos disse Oscar Wilde que “a civilização exige escravos” [1]?

Daí, como sempre depois de ler esses roteiros que fariam ruborizar Ed Wood, eu me pergunto: mas afinal, por quê? Alguns conhecimentos rudimentares de psicologia nos ensinam que a pessoa dependente de atenção não se importa se ela vem de forma elogiosa ou depreciativa. Desde criança aprendemos que “se você der corda à provocação, ela nunca vai acabar”.

Se um blog (ou coluna de jornal, ou mesmo cátedra de universidade) ganha destaque inaudito por uma determinada polêmica, a pessoa que procura antes a notoriedade que o conhecimento ou a coerência irá rapidamente encontrar naquilo seu “nicho de mercado”. É por isso que muitos polemistas que aparecem nos jornais, revistas, TV e, claro, na internet, começam com críticas tímidas, declarações cuidadosas, e até atitude respeitosa.  Quando se dão conta, porém, que falar mal de algum fenômeno da modernidade rende audiência (e dinheiro), eles atacam com todas as forças e cancelam os últimos vestígios de bom senso, pois o respeito é um crime imperdoável para o polemista.

A regra máxima do polemista é saber categorizar tudo e desmerecer qualquer discordância como “estupidez” e contestação como “ditadura do politicamente correto”. Essa última acusação é fundamental na sua estratégia . Ele precisa nos convencer de que está contra a corrente. Estar contra a corrente é inteligente. É cool. É cult. É in. (O polemista nunca perde a oportunidade de usar um termo em língua estrangeira. Inglês é bom. Francês é elegante. Se for latim, melhor ainda. O grande polemista usa os três – é quase um texto poliglota. Mesmo que os termos tenham similar na língua “vulgar” – o polemista nunca se limita ao vulgar.)

Mas o mais importante é: a crítica do polemista é sempre favorável aos poderosos. Sua independência jamais ataca os endinheirados. Sua inteligência enaltece os exploradores. Sua coragem nunca confronta os opressores. Afinal, esse papo todo de justiça social, direitos humanos, respeito pelos animais, veganismo e tal é conversa de gente sentimental, politicamente correta, desprovida de inteligência e, geralmente, de sexualidade desviante (o polemista tem uma mórbida fixação pela sexualidade alheia; ele não tem preconceito, as minorias é que não sabem brincar). E, claro, de fascistas. Você exige respeito, justiça e direitos iguais??? Ora, seu stalinista sádico! O único valor que o polemista preza é a liberdade. No caso, a liberdade de aprisionar, torturar e matar animais.

Um polemista é um predador feroz. Ele fareja sua vítima a quilômetros de distância, e seu ataque pode ser fatal. O problema para o polemista é: ele é previsível. Antever os seus passos dará a você a vantagem na perseguição. Polemistas são como as vacas: se eles puderem, irão matar você – então mate o polemista primeiro. De inanição. Por isso, ao vegetariano perdido no ciberespaço, fica meu primeiro conselho: faça o que fizer, nunca alimente um polemista.

O segundo conselho é: melhor que façamos nosso trabalho, divulguemos nossas ideias, apresentemos nossos argumentos. Existem muitos espaços que podemos ocupar antes de nos envolvermos numa batalha inglória com a inteligência do polemista – de tão inalcançável, ela me parece, na verdade, inexistente. Em terceiro lugar, não se esqueça: a primeira regra para conquistar o respeito é se dar ao respeito. Argumentos sempre ferem mais que xingamentos e maldições. Se você se sente impelido a pronunciar as últimas, deve ser porque não está suficientemente familiarizado com os primeiros. Então, antes de mergulhar num debate, mesmo que civilizado, sinta-se seguro de ter os argumentos para fazê-lo. Antes de convencer alguém a seguir seus ideais, você precisa saber exatamente em que eles consistem e quais seus fundamentos. Por isso, se você quer argumentar em favor dos animais, não se apresse: primeiro aprenda um pouco sobre nutrição, biologia, ciência e filosofia.

O que nos leva ao último conselho: a coerência não é um artigo de luxo. É necessidade básica. A sua incoerência pode e será usada contra você. Depois que você tiver aprendido um pouco sobre a causa que quer defender, ou seja coerente com ela, ou abandone-a, para o bem de todos. Um “defensor” dos animais que não é vegano não só faz mal a si mesmo, mas igualmente aos animais e à causa.

Por último, resta destacar que o culto carnivorista está se proliferando rapidamente. Logo ele não precisará mais vampirizar vegetarianos desavisados (e despreparados) na internet, pois está a ganhar ares de respeitabilidade intelectual (já andou sendo alardeado por alguns portadores do título de doutor). Suas armas, porém, são as mesmas: defender as liberdades civis de matar, torturar e oprimir; denunciar o fascismo totalitário de quem não respeita essas tradições tão nobres e populares.

Nosso conforto é que isso geralmente acontece quando uma ideia ganhou força o suficiente para não poder mais ser ignorada, e se tornou perigosamente subversiva. Certa vez disse John Stuart Mill: “todo grande movimento deve passar por três estágios: ridicularização, debate, adoção”. Pode levar 100 anos; pode levar 200 – o amanhã nos pertence.

[1]WILDE, Oscar. A Alma do Homem sob o Socialismo. Porto Alegre: L&PM, 2003, p. 44. Wilde foi ele próprio um grande polemista, mas de um tipo que não existe mais: aquele que realmente portava inteligência e desafiava as convenções do seu tempo.

Vanguarda Abolicionista faz protesto no 1º de Maio

Fotos: Leonardo Rocha e Rafael Santini

O grupo Vanguarda Abolicionista se fez presente junto às atividades promovidas pela CUT por ocasião do 1º de Maio, Dia do Trabalhador, neste sábado. No espelho d’água da Redenção, em Porto Alegre, foi montado palco para shows de hip-hop e de música gaúcha, com bandeiraço da CUT, sindicatos e partidos da esquerda, e gravação do programa de TV ‘Coisas do Sul’. Desde as 8h, houve farta distribuição de material político para o público presente, e a Vanguarda Abolicionista marcou presença com uma faixa escrito ‘Libertação Animal’ e dois banners coloridos, contra o consumo de carne e contra o uso de couro.

Os frequentadores do parque, muitos com seus animais de estimação, se mostraram simpáticos ao discurso abolicionista, apesar do estranhamento das imagens e mensagens, à primeira vista. Entre os ativistas, a nutnicionista Claudia Lulkin cativava os passantes com uma conversa provocativa mas envolvente. Uma professora aposentada parou para conversar, e contou que certa vez, em Bagé, esteve em uma palestra sobre animais, e na hora das perguntas pegou o microfone para reclamar que a palestrante usava casaco de Chinchilla. “Depois até fui advertida, por ter causado constrangimento. Mas quantos animais foram mortos só para ela usar um casaco? E depois dá palestra falando de animais”, aponta.

Populares também se aproximaram para pedir orientação em casos envolvendo animais. “Abandonaram um pitbull em frente ao Colégio Luciana de Abreu, e agora ele circula pela Jerônimo de Ornelas, com moradores de rua. Liguei para a Prefeitura e para outros órgãos, e ninguém quis se responsabilizar”, reclamou uma passante. Os ativistas tomaram nota das informações e explicaram que o resgate poderia ser feito por voluntários da proteção animal, que agem com seus próprios recursos.

O deputado estadual Raul Carrion, do PC do B, passou para cumprimentar os ativistas, e recebeu de presente um DVD do documentário ‘Não Matarás’, produzido pelo Instituto Nina Rosa. O ministro da Justiça, Tarso Genro, estava a poucos metros do local, mas não chegou a travar contato com o grupo, que já aguardava com um kit de materiais para entrega.

A mobilização se encerrou perto das 14h, com saldo positivo pelos contatos realizados e o volume de panfletos distribuído, inclusive na tradicional Feira Orgânica, que acontecia junto ao Parque da Redenção. O sábado frio, mas com Sol forte, foi dedicado aos trabalhadores humanos e, pela ação da VAL, aos não-humanos.

√єgєταяīαηīىмσ э Éтicα™®.

Antropodescentrismo: as fronteiras móveis entre o ser humano e as outras espécies

Em dois livros recentes, “Intelligenze plurime” [Inteligências plúrimas] e “Il tramonto dell’uomo” [O declínio do homem], Roberto Marchesini (foto) coloca em discussão a centralidade do “homo sapiens”, destacando como na esfera do “bios” não há hierarquias, mas sim especializações relativas aos contextos, não distâncias qualitativas entre o humano e o resto do mundo animal, mas sim contiguidade e diferenças entre as espécies, incluindo os humanos.

Marchesini participou, em 2008, do Simpósio Internacional “Uma sociedade pós-humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias”, organizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, na Unisinos.

Publicamos aqui a avaliação crítica de Alberto Giovanni Biuso, professor de Filosofia da Mente na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Catânia, na Itália, escrita para o jornal Il Manifesto, 30-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.Es o texto.

O século XX foi (também) o tempo em que o paradigma humanista que, por milênios, havia embasado a cultura e a vida do Ocidente começou a mostrar as suas falhas e as suas contradições. Esse paradigma vitruviano – tão admiravelmente expressado na célebre incisão de Leonardo da Vinci e nas páginas de Pico della Mirandola, e fundamentado na centralidade absoluta do humano, na sua separação de qualquer outro ente e na autopoiese, uma virtualidade ilimitada que permitiria que a nossa espécie se tornasse tudo o que quisesse – progressivamente caiu. De pouco valem as nostalgias humanistas, mesmo que diversamente declinadas: a antroposfera não existe – nunca existiu – fora de uma relação constante e dinâmica com a teriosfera (os outros animais), a tecnosfera (o chamado mundo artificial), a teosfera (a dimensão do sagrado).

Concentremo-nos na primeira, a teriosfera, partindo de um dado evidente: a “animalidade” não é uma categoria. É manifestamente um engano assimilar formigas, corvos os cavalos em uma ideal contraposição com o homem, a partir do momento em que muitíssimos animais são muito mais próximos – seja genética ou funcionalmente – à espécie humana que a outras. Um chimpanzé ou um cachorro são muito mais “parentes” do Homo sapiens do que das abelhas, dos moluscos, das cobras.

Na recorrente comparação distintiva entre a nossa espécie e os “outros animais”, pode-se, portanto, ler um sintoma ao mesmo tempo de presunção e de insegurança. A vida se expressa em uma multiplicidade de formas, todas ligadas entre si e todas diferentes, e não tem sentido a obsessão comparatista segundo as quais, toda a vez que se discute inteligência animal, ela é entendida como uma categoria unitária, que deve ser confrontada sempre e apenas com a inteligência humana, quase como se esta última constituísse o parâmetro sobre o qual deve-se medir qualquer outra habilidade cognitiva.

Tão radicados são esses estereótipos que uma perspectiva etológica e biológica mais rigorosa não poderá não levar senão àquela que Roberto Marchesini definiu no seu “Intelligenze plurime. Manuale di scienze cognitive animali” [Inteligências plúrimas. Manual de ciências cognitivas animais] (publicado pela editora Perdisa no ano passado) como uma nova “revolução copernicana”.

Escreve Marchesini: “Nós, homens, temos a surpresa de habitar em uma pequena e remota região cognitiva que naturalmente tem contiguidades, proximidades e até sobreposições com a das outras espécies”.

Mover-se rumo a um antropodescentramento do conhecimento significa, simplesmente, entender melhor a vida, tanto em sentido biológico como em sentido ético. São muitas as formas em que o antropocentrismo se expressa, do antropomorfismo, que tende a assimilar a cognição animal à humana, à reificação, que nega que nos animais não humanos haja inteligência. Em ambos os casos, é ignorado o fato de que a inteligência, citando ainda Marchesini, é “uma função biológica que – como a sensorialidade, a anatomia das artes, a digestão – se apresenta no universo animal de modo plural com uma multiplicidade de vocações e atitudes não sobreponíveis entre si”.

No bios, enfim, não há hierarquias, mas apenas especializações relativas aos contextos, não distâncias qualitativas entre o humano e o resto do mundo animal, mas sim contiguidade e diferenças entre as diversas espécies, incluindo os humanos. A oposição humano/animal se situa dentro de um círculo comum e mais amplo, biológico e tecnológico. Em uma perspectiva antropodescentrada e etológica, tanto o comportamento reducionista quanto o funcionalismo computacional mostram a sua insuficiência, pois ambos ignoram o fato de que o humano não possui e não habita um corpo, mas é corporeidade complexa e adaptada ao ambiente.

Oito formas de inteligência

Essa unidade plural do ser vivo, objeto em que Marchesini trabalha há anos, encontra em “Intelligenze plurime” e no posterior, o recentíssimo “Il tramonto dell’uomo. La prospettiva post-umanista” (Dedalo 2009) um rigoroso ponto de apoio. A pluralidade cognitiva se explica, para Marchesini, em oito formas de inteligência: social, enigmista, orientativa, abstrata, operativa, referencial, comunicativa, reflexiva.

A inteligência social, ou relacional, é a capacidade de pensar com o grupo/bando e a favor da sua sobrevivência. A inteligência solutiva é, pelo contrário, capaz de resolver problemas em solidão. A inteligência de mapa é capaz de visualizar mentalmente os contextos espaço-temporais mediante coordenadas astronômicas, sinalizações paisagísticas e autorreferenciais (como os feromônios ou as urinas). A inteligência conceitual abstrai da realidade os conceitos gerais mediante operações de mapeamento e orientação interiores. A pragmática inclina o mundo a suas próprias exigências de utilização. A inteligência mimética é capaz de aprender com a relação com membros do grupo, da espécie a que pertence ou também de outras espécies. A dialógica permite intercambiar conteúdos com outros da mesma espécie. E por fim a inteligência reflexiva ou introspectiva “refere-se à capacidade de fazer referência à mente como mundo interno e, portanto, ao estado mental vivido, à própria biografia, à abordagem simpatética do outro e da abordagem empática do outro.

Objetos

Com relação às críticas que são dirigidas à ciência por ser a maior responsável pela vexação de outras espécies, Marchesini rebate “ao contrário que é graças à ciência que o homem contemporâneo soube sair do antropocentrismo (seja por analogia quanto por distanciamento), começando assim a olhar com humildade e interesse o grande patrimônio de diversidade que o universo das outras espécies animais nos oferece”.

Se isso é verdade, não deve ser subavaliado, no entanto, o fato de que os laboratórios científicos e farmacológicos constituem ainda hoje lugares de tortura para muitíssimos animais. Horrores praticados não apenas em nome dos negócios, mas também “pelo progresso das ciências”. E, entretanto, a vivissecção é uma das práticas mais anticientíficas que existem, como argumenta Stefano Cagno, em “Imparare dagli animali” (Perdisa 2009), um livro que toca as questões mais urgentes da relação humano/animal, da engenharia genética à clonagem, do vegetarianismo à caça, da pet-therapy aos direitos dos animais – um argumento, este último, do qual o filósofo norte-americano Tom Regan se ocupa com vigor há diversos anos, cujo livro “Gabbie vuote” [Gaiolas vazias] foi republicado recentemente na Itália.

Cagno sustenta que a vivissecção é “um método de pesquisa arcaico”, que “se baseia no conceito de ’semelhante’, sem valor científico”, tanto que “já causou danos à saúde humana”, pois “não existe nenhuma semelhança entre as doenças que surgem espontaneamente nos seres humanos e aquelas induzidas artificialmente nos animais”. A vivissecção não só “representa uma violação dos direitos animais”, que são “tratados como objetos”, mas também se presta a “qualquer forma de abuso e de sadismo (…) ante sala para uma experimentação sobre o homem privada de regras”. Esse grave “desperdício de recursos econômicos (…) permite fáceis carreiras universitárias” e principalmente permite que “as indústrias farmacêuticas inundem o mercado com novos produtos”.

Pretensões autárquicas

Entre aquelas que Eugenio Mazzarella quis chamar, com uma bela definição, de “ciências da nova humildade” e que deveriam nos induzir a um repensamento sempre mais profundo sobre a inaceitabilidade das dores infligidas a outras espécies em nome da superioridade da humana, apresenta-se quase com um estatuto bem preciso a zooantropologia, cujo “assunto de base está em considerar o humano como um processo, não como um estado”, para retomar mais uma vez as palavras de Roberto Marchesini no livro assinado com Sabrina Tonutti, “Manuale di zooantropologia” (Meltemi 2007).

A zooantropologia rejeita as pretensões típicas do humano com relação ao mundo das outras espécies: a pretensão distintiva que vê na cultura uma posse exclusiva da nossa espécie; a pretensão autárquica que nos tornaria autônomos do resto do mundo vivo; a pretensão separativa que faz das características humanas o cume da vida e da sua evolução.

Nessa perspectiva, e como Marchesini argumentou em “Tramonto dell’uomo”, o corpo humano não constitui uma fortaleza fechada que se gera por si mesma e por si mesma alcança a vida, mas é um projeto dialógico e mundano. O corpo não é um equipamento que se possui, uma casa que se habita, interface instrumental, mas é a obra aberta na qual convergem os processos metabólicos, perceptivos, emotivos, relacionais, tecnológicos que, juntos, definem e fazem a nossa espécie. Um corpo que se é; não que se usa. Um corpo que é tempo germinado pelas memórias e pelos genes, constituído por aquela evidente transitoriedade que se chama finitude e morte. Bios e téchne não são duas, “toda tecnologia é, de fato, uma biotecnologia”.

Um planeta em perigo

Pensar a tecnologia de modo instrumental e exterior com relação ao caminho evolutivo da nossa espécie nos torna incapazes de compreender sua potência intrínseca além da evidente pervasividade da vida contemporânea. “As atitudes hiper-humanistas (a tecnociência como domínio do homem sobre o mundo) e trans-humanistas (a tecnociência como salvação do homem pelo mundo) – observa Marchesini – não colocam em discussão o conceito de homem-essência como centro gravitacional em torno ao qual tudo gira e ao qual tudo deve ser referido”.

O risco é, portanto, a (auto)destruição do humano e, com ele, do planeta. Mesmo que para contrastar esse perigo, a perspectiva pós-humana confere ao Homo sapiens características e funções específicas – que ele certamente possui, como qualquer outra forma de vida – que, no entanto, renunciam à ilusão epistemologicamente errada e pragmaticamente suicida da centralidade ontológica. “Por isso, falamos de antropodescentrismo como de uma progressão que constrói os predicados humanos contaminando-se sempre mais com o mundo e tornando o mundo partícipe do próprio projeto”.

Com a perspectiva zooantropológica e pós-humanista, declina a concepção do animal “bom de comer”, própria das filosofias e práticas mais antropocêntricas, que veem nas outras espécies só recursos e instrumentos para a espécie humana. Mas também do animal só “bom de pensar”, de grande parte da excelente pesquisa antropológica e histórica que analisa a esfera das outras espécies nas suas expressões e funções simbólicas, tecnológicas, estéticas, sagradas, culturais, como espelho fiel ou deformador – em todo caso – do humano. E acrescenta-se, pelo contrário, o animal “bom de ser” àquilo que nós mesmos somos na complexidade e na extrema variedade da natureza.

FonteUNISINOS

via ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais.

Filhos: cheiro de egoísmo assando na cozinha

Vanguarda Abolicionista – Marcio de Almeida Bueno

Aí vem um calor desgraçado como esse que estava aqui em Porto Alegre, de não se conseguir respirar direito, nem dormir, nem comer, e muito menos fazer história. Eu pensava nos cavalos sobre o asfalto, sedentos e carregando os engodos sociais/letargias legais nas costas. Pensava também nos porcos em chiqueiros de teto de zinco, logo acima de suas cabeças. Eu estava adoentado, deitado em um quarto com ar-condicionado e ventilador na cara, e ainda assim a opressão externa e interna era enorme. Armava-se um temporal de alívio, mas não chovia, frustrante como um coito interrompido.

Cavalos e porcos rolando no meu suor, dores pelo corpo, remorso pela minha condição de humano. Ok, dias antes eu estava no ativismo em pleno Fórum Social Mundial, mas eu não estava logo em seguida soltando o anzol preso nas pregas anais de milhões de animais, sob aquele calor de forno de padaria. Estava no ar-condicionado, e reclamando.

De quem é a culpa?

Dos pais. De todo aquele que quer ser pai, ser mãe, e aí compra sapatinhos de tricô, aquele livroNomes Para Seu Bebê e faz encomenda à cegonha. A culpa pelo rolo todo, de A a Z, da pecuária enrabando a Amazônia até cada cachorro sarnento sendo chutado na rua, é dos ‘pais’. Pessoal que exige colocar neste mundo mais uma pessoa, como se 6 bilhões de tranqueiras já não bastassem. Mais gente que vai querer comer bifinho, que precisa de remédios, madeira, asfalto, escola, conexão de Internet ou um canto a mais na favela.

Em O Contrato Animal, Desmond Morris deixa claro o engodo demagógico de se pensar no desenvolvimento como ‘mais empregos, mais escolas, mais estradas, mais moradias’ – e não melhores empregos para quem já habita o planeta, melhores escolas e tal.

Obviamente que de algum lugar tem que vir a matéria-prima para fornecer comida, roupa, sapato, celular etc. para toda essa gente e para seus filhos, e haja floresta para se derrubar – adeus, animais silvestres – ou incremento na extração de produtos animais, em toda sua gama de lucro fedendo a sangue e confinamento.

Parece que só tendo um filho é que muita gente se sente parte do mundo, quase um ato patriótico de construção de população, como se isso realmente fosse necessário. Se o objetivo é criar uma outra pessoa, educar, dar meios para ser um adulto, que se tenha um mínimo de pena das crianças à espera de adoção, no lugar do egoísmo frouxo e ‘boa família’ que habita corações e mentes de casaizinhos socialmente ingênuos.

O maior ato de amor, nessa farsa chamada ‘a instituição da família’, seria trazer para dentro da própria casa uma pessoa que não saiu de um útero-forno de padaria após mistura de ingredientes próprios. Que diferença faz para o sentimento? Sinto cheiro de egoísmo assando na cozinha.

E claro que os animais, Morlocks de nosso tempo, estão ardendo em um inferno mais quente para que o mercado atenda essa demanda crescente de gente, gente, gente. Mais ovos de Páscoa, mais presunto no supermercado, mais cochonilhas torradas para as bolachinhas recheadas, mais gado trazido à vida – quanta bondade… – pelos pecuaristas, mais ovo saindo do cu das galinhas para que novos humanos aproveitem, a seu bel-prazer, os confortos e as delícias oriundas do abuso dos animais.

‘Mãe, quero um cachorro’, ‘cadê meu iogurte?’ e ‘ganhei uma bola de futebol da vovó’ são frases singelas e até musicais para os ouvidos de pais patriotas felizes, mas significam um alicate apertando cada vez mais forte a prega anal de um animal – mesmo que a criança use lancheira de porquinho, camiseta de bichinho ou assista aos longas de animação estrelados por animais.

Sim, já ouvi falar que ‘vocês veganos’  ’são contra crianças’, ‘odeiam bebês’ e demais lendas preconceituosas, mas eu apenas parei para pensar, há muitos anos, e não deixei que essa escolha fosse determinada pela pressão social, pela mídia, pelas comadres fofoqueiras – ‘quando é que vêm os herdeiros?’ – nem pela tradição, esse tacape invisível e estúpido que paira por sobre a cabeça de todos os imbecis, empurrados para um emprego, um time de futebol, um candidato e, especialmente, a uma alimentação indiferente ao sofrimento, três vezes ao dia.

Se criticamos o passado, nos indignamos com a intolerância de nossos ancestrais, consideramos absurdo o patrulhamento de vidas, culturas e recursos em épocas remotas, é preciso parar para pensar, sem se apegar às bochechas rosadas dos álbuns de fotografia da família. Ter responsabilidade social e ambiental vai significar algum esforço, senhores e senhoras que escreveram ‘ética’ a lápis em seus crachás.

Faça seu comentário!

Em Carne Viva

Ética, saúde e religião são apenas três pontos visíveis de uma questão bastante complicada, ao menos para alguns: criar uma dieta que poupe os animais

De uma hora para outra, os vegetarianos cresceram e se multiplicaram. A ambição de levar uma vida saudável está cada vez mais atrelada à ideia de se evitar carnes. Para arrematar, a discussão a respeito de um mundo sustentável e os problemas do meio ambiente flertam com o vegetarianismo e com a proposta de uma vida em harmonia entre os animais, incluindo os seres humanos.

No Brasil, existem publicações interessadas nesse público, como a Revista dos Vegetarianos e a Vida Natural. Marco Clivati, editor da primeira, conta que o número de leitores só aumentou. Em 2006, a estreia teve uma tiragem de 10 mil exemplares e a edição mais recente, sobre “Medicina integrativa”, somou 30 mil exemplares. Ele cita ainda o aumento no número de restaurantes do gênero – frequentados inclusive por carnívoros –, de produtos lançados no mercado e da movimentação na internet em torno do tema.

Nos Estados Unidos, os vegetarianos ganharam há pouco um entusiasta articulado. Jonathan Safran Foer, autor do romance Tudo Se Ilumina, lançou um livro de não-ficção chamado Eating Animals (Comendo Animais), em que escreve sobre os processos de produção das propriedades ocupadas em criar animais para a indústria alimentícia. Continuar a ler