Nunca fui santo

por Rafael Jacobsen

Conversar com pessoas elevadas espiritualmente costuma ser tarefa difícil, principalmente quando o tópico resvala para a questão que se poderia denominar “compaixão pelos animais”. Sempre, nessas ocasiões, acabo me vendo obrigado a revelar o meu vegetarianismo. Na maioria das vezes, o espiritualizado interlocutor responde, com sua voz calma, cheia de paz: “Sim, você está certo; é uma pena que eu ainda não tenha atingido esse estágio de evolução.” E não, em 97% das vezes, não se trata de uma ironia: a outra pessoa, de fato, crê que, para se tornar vegetariano, o sujeito precisa estar nos mais altos degraus de uma espécie de hipotético “ranking de santidade”.

Esse tipo de consideração me desconcerta profundamente. Eu nunca fui santo. Minha índole é assídua freqüentadora da lista canônica dos sete pecados capitais (com destaque para gula, cobiça e luxúria). Já roubei pirulito de criança, xinguei a mãe do juiz, estacionei em lugar proibido. Jamais aspirei ao Paraíso ou ao Nirvana (ou como queiram chamar). Jamais atingi o Samadhi e não me sinto nem um pouco frustrado por conta disso. Meditações, para mim, é nome de um livro do filósofo e imperador romano Marco Aurélio, obra cujo efeito soporífero muitas vezes me foi benéfico ao final de dias de trabalho e estresse regados a café preto. Meus chakras devem estar mais desalinhados do que trilha de tatu bêbado. Zen? Ioga? Tai Chi Chuan? Yin e Yang? Sai de mim!
Um episódio ilustra bem o que digo. Certa vez, fui a um restaurante de comida oriental ovolactovegetariana. Coube a mim a tarefa de “inspecionar” o bufê e “interrogar” a simpática família taiwanesa proprietária do estabelecimento a fim de descobrir quais pratos eram isentos de produtos de origem animal. Percebendo minha insistência em saber detalhes sobre os ingredientes de todas as preparações, um cliente do restaurante aproximou-se de mim e falou: “Com licença. Estava aqui ouvindo as perguntas que você fazia ao moço do restaurante e percebi que você não come queijo, é isso?”. “Sim”, eu respondi. O outro comensal prosseguiu, curiosíssimo: “Mas por quê? É uma questão de paladar ou é algo mais… mais, digamos, filosófico?”. Sorri e, já começando a me servir, respondi: “É algo mais filosófico, sim.”

Então, o meu interlocutor arrematou, cheio de sabedoria: “Mas você sabia que Jesus comia peixe? E que os monges budistas comem carne?”. A minha resposta arrancou uma expressão de espanto do sujeito: “Mas eu não sou cristão e nem budista.” Minha vontade era dar uma resposta bem menos espiritualizada, bem mais mal-criada, do tipo: “Estou pouco me lixando para o que Jesus ou o Dalai Lama comem ou deixam de comer. A dieta deles me interessa tanto quanto a de Napoleão, a de Grouxo Marx ou a de minha vizinha dançarina de rumba.” Mas eu não fiz isso. Em um raro momento de iluminação em minha vida, respondi com cortesia e simplicidade.

A historieta exemplifica uma postura comum a muitas pessoas: a dificuldade em raciocinar por si e adotar posturas corretas e coerentes de modo independente. Em vez disso, precisam copiar modelitos prontos em suas mais diversas atitudes. Se o homem caminhou sobre águas, curou leprosos e foi crucificado, é alguém a ser imitado em tudo. Se o indivíduo prega paz e amor, medita várias horas por dia e vive em um mosteiro tibetano , deve ser também digno de cópia. Para muitos, pode ter lógica; para mim, cheira a postura acrítica. E, aliás, cheira mal. Nada tenho contra Jesus ou o Lama, mas também não tenho nada a favor.

Apenas penso que a autonomia de pensamento é primordial para a construção de um mundo mais ético e compassivo, pois é o que nos move a questionar antigos dogmas, revisar velhos hábitos. Como diria um certo filósofo: “Apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios são como as sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa.”

A insistência de muitos em associar vegetarianismo e santidade já me fez pensar, mais de uma vez, em encaminhar meu processo de canonização ao Vaticano, diretamente aos cuidados do Joseph Ratzinger, mais conhecido como Bento XVI, aquele comedor de vitela safadinho. Não, não vou esperar minha morte e, se o povo estiver certo, tenho grandes chances de ser o primeiro sujeito canonizado em vida.

Porém, ainda reluto. Teimo em achar que não aprisionar, torturar e matar animais para depois comê-los não tem nada a ver com santidade. Nem mesmo é um ato movido por boas intenções. Longe de mim tais virtudes. Trata-se, a rigor, de um pré-requisito de mínima decência. Não faço mais do que a minha obrigação. Posso ter muitos defeitos, mas explorar animais passa dos limites, mesmo para um devasso feito eu. Vade retro, churrascada!

Fonte: Vista-se.

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One response to this post.

  1. Em setembro recebi uma mensagem de um conhecido que também ‘me informou’ de que Jesus e ídolos espíritas ‘comiam carne’.Minha resposta não foi tão educada quanto a tua Rafael (cansa ser sempre educada).Enviei a resposta abaixo:

    Prezado….
    Cheguei de Salvador esta semana (estive participando do I Congresso MUNDIAL de Bioética e Direitos dos Animais, veja só) e me deparei com teu e-mail, dentre centenas de outros conhecidos.

    Não lembro de ter te enviado nenhuma espécie de mensagem, mas pelo teu texto suponho que o …., querido amigo, tenha te mostrado o e-mail que enviei para ele um tempo atrás. Bem, essa troca de mensagens faz parte do mundo virtual em que vivemos e, se em princípio estranhei receber uma mensagem pessoal de alguém que nem sequer conheço direito, analisando o texto até agradeço por ter a oportunidade de ler sua opinião e assim lhe conhecer um pouco mais. Podemos talvez debater algumas questões.

    Você começou seu texto falando de cadeira… Mas não sei de que ‘cadeira’… Você é especialista em que área?

    Continuando, citou seu pai. Que bom que ele trabalhou bastante e ganhou o suficiente para criar a família de forma digna. Claro, para mim, como sou defensora da não exploração dos animais para quaisquer tipos de problema humano a criação de gado para consumo e comercialização não soa digno, até porque há diversas formas de se ganhar dinheiro sem explorar nem animais nem humanos. Mas, como você disse faz parte da cultura humana (não a minha) o abate de animais. Para mim há formas outras bem melhores de sobreviver no planeta, é uma questão de competência e criatividade. Mas achei lamentável o que você disse sobre a extinção destes animais se não houvesse consumo de carne. Demonstrou falta de informação e por isso resolvi escrever de volta. O aprendizado, em qualquer idade só faz evoluir o espírito.

    Convenhamos, a primeira parte do teu texto, sobre a extinção de vacas, bois, porcos e cavalos foi muito engraçada (para não dizer outra coisa). Quer dizer que graças aos comedores de cadáveres dos animais citados é que estes mesmos animais existem????? Eheheheheh… Difícil acreditar no que eu li, mas deixa pra lá, explicar teu equívoco iria demandar um tempo longo, quem sabe num outro e-mail.

    Sobre quem seria idiota o suficiente o bastante pra comprar terras e criar animais para abate, deixo tua imaginação viajar… Não é muito difícil achá-los, te garanto.

    Sobre criar animais DE GRAÇA, nem vou discutir… Afinal não somos donos dos animais, aliás, quem tem filhos não é dono nem deles, concorda? Esta posição de o homem ser o dono da Terra e de tudo o que nela habita é tão equivocada, burra e ridícula, que me recuso a debater com alguém que não seja no mínimo especialista em filosofia (como eu). Não tem como discutir algo com quem não tem um mínimo de informação e formação, concorda?

    Sobre ter opinião sobre determinados assuntos, como eu tenho claramente convicção da solução para a fome no mundo (e ela passa bem ao longe do consumo de cadáveres de animais), posso expressá-la sem temer opiniões contrárias. Dificilmente alguém tem argumentos melhores do que os meus. Pode tentar… Eu teria até um grande prazer num debate público contigo.

    Quanto à foto do teu prefeito e vice frente a um porco carneado, só mostrou que os dois são muito incompetentes. O … pelo menos foi mais inteligente. Se comeu, ninguém viu. Politicamente foi mais estratégico, claro, sob o ponto de vista dos vegetarianos. Para os comedores de cadáveres de animais foi até uma foto meiga, educativa, estimulante do paladar…

    Quanto ao meu gato, importo ração pra ele da Europa. Ração vegetariana. Tem muita gente culta em … que nem sabe que isso existe. E dizem que ….é a capital brasileira da cultura… Só rindo pra não chorar…

    Sobre a cadeia alimentar e a extinção humana, poderíamos ter outro debate público. Eu ia gostar muito de explicar aos cultos comedores de cadáveres de animais as lições esquecidas (e algumas equivocadas) do primeiro grau.

    Sobre a ‘evolução’ dá saltos… Por favor, me poupe… De que evolução está falando? Da dos teus candidatos à prefeitura que desmataram 630 árvores para construir uma moderna e charmosa cancha de laço? Da destruição de pinheiros nativos para os boyzinhos (e algumas professoras) ….. irem de carro para a …? Da contaminação das bacias de captação para pasto pros adoradores de cadáveres de animais se ‘embucharem’? Dá licença que eu vou vomitar…

    Em tempo: Se Cristo comia carneiro o problema foi dele. Se Chico Xavier comia carne, coitado, o problema foi só dele, não tenho nada com isso… E o Divaldo Franco sempre comeu carne? E daí? Eu com isso? Não tenho nada com a vida destes senhores… Não tenho ídolos, tenho compaixão por seres vivos que sofrem e sentem dor. Se estes senhores não tiveram ou não tem compaixão, quem sabe não pagaram ou irão pagar por isso?

    Até porque Buda não comia carne, Dalai Lama também não… E daí? Tu come carne, o … também, o …. também (diminuiu muito – está evoluindo como ser humano), meu cunhado também, tua mulher e teus filhos, teus amigos, a maior parte da população mundial… E daí? E eu com isso? O problema é de vocês… Não sabia que toda unanimidade é burra?

    O último parágrafo do teu texto me pareceu a única coisa sensata e inteligente de todo ele. Realmente, vai chegar o dia em que o ser humano irá descobrir a espécie vil em que se transformou. De total necessidade passou a assassinar animais por prazer, ganância e vaidade. Um dia irá pagar por esta insensatez. Que bom que os filhos, e netos de seus netos, e netos dos netos de seus netos estarão aqui pra ver.

    Cleila Fochesato Sartor
    http://vista-se.com.br/redesocial/nunca-fui-santo/#comment-1794

    Responder

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