Filosofia do Descaso

por Leon Denis

Não queremos um mundo árido e fétido, mas sim um mundo com ar limpo, águas claras, terra negra e fértil, animais abundantes e variados. Queremos um mundo vivo, um mundo são e, também – por que não? – um mundo belo“.
Laura Conti

Em todo esse artigo, minhas referências serão os professores de Filosofia, do Ensino Médio, pois, assim como Henry Thoreau, acredito que, atualmente, só há professores de Filosofia e não mais filósofos.

O tratamento dado às questões que envolvem a ética ambiental pelos professores de Filosofia nas redes públicas de ensino é praticamente nulo. Quando abordam questões éticas em sala de aulas, poucos põem os Direitos Animais, o Veganismo e a Ética Ambiental em pauta. Temas intimamente relacionados. Quando falamos de ética-política, é senso-comum girarmos em torno da necessidade de estendermos a todas as minorias da espécie humana o devido respeito moral que, há até poucos anos, era exclusivo dos homens brancos.

Para os professores de Filosofia, em geral, discutir ética é promover debates em sala de aula sobre aborto, eutanásia, legalização de entorpecentes, clonagem humana ou corrupção política quando um desses temas está em destaque na mídia ou quando é usado para apresentar o que alguns filósofos considerados clássicos disseram a respeito. Pôr o veganismo como assunto a ser discutido nas aulas de Ética é indispensável.

É imprudência dos profissionais do campo filosófico do Ensino Médio continuarem ignorando a postura ética e política do veganismo, principalmente se partirmos do ponto de vista que o classifica como um movimento revolucionário. Em toda a História do pensamento ocidental, os filósofos foram e são os grandes teóricos do Vegetarianismo – hoje do veganismo – e dos direitos dos animais não-humanos a uma vida decente. Se indagados sobre o que acabei de relatar, boa parte deles irá dizer que nem sabia que existiam filósofos vegetarianos, muito menos veganos. “Uma postura tão exótica como o veganismo, não é digna de um filósofo”, diriam. Não é? Pois bem. Muitos nem ao menos sabem porque na maioria esmagadora das faculdades de filosofia não se ensina uma ética realmente abrangente e sim uma pequenina antropocêntrica.

Em resposta a esse desconhecimento histórico-filosófico, temos esse belíssimo aforismo nietzscheniano: “toda filosofia antiga baseava-se em um estilo de vida simples. Nesse sentido, os poucos filósofos vegetarianos contribuíram mais para o bem- estar do homem do que todos os outros juntos”. Realmente, são poucos os filósofos sensíveis – e não menos racionais – em comparação à imensidão de especistas.

Em um ano letivo, temos quatro bimestres, tempo suficiente para trabalharmos “esses poucos”. Por que então não apresentarmos Pitágoras e não somente Sócrates? Por que não apresentarmos Plutarco e não somente Aristóteles? Por que não dedicarmos um bimestre à revolucionária defesa de nossos irmãos animais não-humanos na Apologia de Raymond Sebond de Montaigne? Há vários filmes e documentários que ilustram bem o que esse cético francês expôs em seus ensaios. Por que não a resposta indagadora de Voltaire a estúpida defesa da vivissecção cartesiana na teoria do animal-máquina? Schopenhauer, Benthan, Thoreau… Realmente são poucos, mas são suficientes.

Até agora, a maioria esmagadora dos professores de Filosofia apenas reproduziu frases feitas dos filósofos anteriores, ou seja, não conseguem nem praticar aquela postura criticada por Marx na célebre tese sobre Feuerbach: “os filósofos limitaram-se até agora a interpretar o mundo de diferentes maneiras, o que importa é mudá-lo”. É necessário partir para um ensino filosófico que proponha e sirva de exemplo para que ocorram mudanças radicais nas maneiras como nossos jovens vêem e agem sobre o nosso mundo. Somente por meio de um ensino com fortes bases práticas poderemos mudar a realidade não-ética que impera em nossa sociedade.

Certa vez Nietzche disse que “antes de educar os educandos, deve-se educar os educadores”, para complementar a frase cito Bertrand Russell: “para muita gente, antes morrer que pensar, e é isso mesmo que fazem”. Partindo deles, eu poderia propor a reeducação dos professores antes dos alunos, mas como propor reeducar aqueles que já optaram pela morte ao abdicar da capacidade de pensar; o que diria da capacidade de lutar prática e teoricamente por um mundo melhor.

Nossos alunos são servos voluntários do deus capital e nossos irmãos não-humanos, involuntários. Os primeiros, como disse Russell, abdicam do direito de pensar para que outros pensem por eles. Já os segundos, simplesmente confiam nas mãos dos que irão tiranizá-los. Uma filosofia que fica nas nuvens da estéril especulação metafísica, só contribui para a permanência das ideologias dominantes do consumismo desenfreado de recursos renováveis e não-renováveis. Não é necessário ser formado em filosofia para saber que a principal função dela é a superação da ignorância, das superstições, das verdades pré-estabelecidas mediante análises críticas e minuciosas.

Isso me lembra uma belíssima passagem da obra “Libertação Animal” em que Singer argumenta que “a ignorância é a primeira linha de defesa do especista (…) facilmente transposta por qualquer um que tenha tempo e determinação para descobrir a verdade” e que só nos passa por perene “porque as pessoas não querem saber a verdade”. Essa passagem nos leva às seguintes indagações: os professores de filosofia por serem especistas, são ignorantes? Não teriam eles tempo e determinação para buscar a verdade? Ou, não querem saber a verdade?
A resposta às questões é um inaceitável sim. O que infelizmente não condiz com a função da filosofia que todos nós conhecemos. Se são ignorantes, se não tem tempo e determinação, além de não optarem pela verdade, como podem propor aos alunos a busca pela verdade? Como poderão formar novas cabeças pensantes em corpos militantes?

Indiscutivelmente, deixar de lado o princípio do reconhecimento dos animais não-humanos como sujeitos de uma vida (mantendo-os eternamente na categoria de propriedade, mercadoria e subproletariado), da contribuição de atos cotidianos aparentemente inocentes para a destruição do meio ambiente, deixa mais do que claro o peso da tradição milenar filosófica e excludente do campo ético-político, no sentido anti-especista. Por que não partir dos conceitos da ecologia natural para discutir a postura da ecologia social, da ecologia política ou do ecologismo? Não se pode negar a importância essencial de um posicionamento ético-político no que se refere à educação ambiental. Posicionamento que se chama veganismo.

O descaso da grande maioria dos professores de Filosofia com a ética ambiental, e também com um engajamento numa educação ambiental, mostra como nossos filosofantes desconhecem a relação da Filosofia com as questões ecológicas. Por exemplo, podemos discutir o ecologismo partindo de pensadores como Karl Marx, John Stuart-Mill, Proudhon, Kropotkin, Luther King, Martin Buber, Herbert Marcuse, Ivan Illich, Wilhelm Reich, Edgar Morin, Cornelius Castoriadis, Peter Singer e muitos outros. E porque não, discutirmos com nossos alunos, a extrema necessidade de rompermos com a imposição ideológica do cientificismo antropocêntrico renascentista e moderno que põe a natureza como serva do homem. Porém, não basta discutir teorias, devemos pô-las em prática, devemos procurar mudar a atual cruel realidade em que vivemos. Assim como na formação filosófica o objetivo é a mudança de mentalidade, atitudes e valores, na educação ambiental não é diferente.

Para concluir, cito as palavras do professor Marcos Reigota: “… a educação ambiental deve ser entendida como educação política, no sentido de que ela reivindica e prepara os cidadãos para exigir justiça social, cidadania nacional e planetária, autogestão e ética nas relações sociais e com a natureza”.

in  Revista dos Vegetarianos

Filosofia do Descaso II

Educação vegana vs filosofia do descaso

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One response to this post.

  1. Posted by MARIA CLARICE DOS SANTOS on Maio 2, 2016 at 00:08

    AMEI este artigo! CELEBRE A VIDA, DIREITO DE TODOS!

    Responder

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