Os temas especismo e veganismo

“No passado, nem tudo que alguma vez teve sentido necessariamente o tem e terá, no presente e no futuro… Alguns costumes são, com certeza, altamente vantajosos… para quem os adota. Os costumes acostumam o sujeito, e o sujeitado também. Nem tudo que nos acostumamos podemos julgar bom, do ponto de vista ético, pois nos acostumamos a muita coisa que faz mal aos outros”. Sônia T. Felipe

Estamos no começo do ano e eu estava pensando em novas abordagens, novas metodologias para esse ano letivo de minhas polêmicas aulas.

Vocês sabiam que dizer que somos animais, também causa polêmica? Pois é. Esse é só um exemplo. Quando abordo o leite, “aí o bicho pega”.

Os temas especismo e veganismo me fizeram lembrar um episódio interessante.

Há alguns meses fui chamado a atenção por uma das coordenadoras pedagógicas de uma das escolas que trabalho por não ter entregado o meu plano de aulas dos bimestres, na verdade eu deveria tê-lo feito no início do ano. Entrei na primeira sala que encontrei vazia e começei a escrever. Meia hora depois, estava pronto meu plano de aula dos bimestres seguintes. Passados alguns dias a professora que comigo divide as aulas de Filosofia me parou no corredor e disse: “a coordenadora me pediu para ajudá-la a entender o que você colocou como conteúdo programático para os bimestres por nós sermos da mesma área.

Quando li, tinha lá: Ética Animal, Ética Ambiental, Veganismo, etc. Eu disse a ela que não fazia a mínima idéia do que se tratava e que era bem diferente do meu plano de aula. Ela vai querer que você explique depois…”

Não só expliquei para a coordenadora, como para a outra coordenadora da outra escola e depois para a vice-diretora e a diretora sob uma chuva de acusações de que os temas por mim trabalhados não tinham nada a ver com os temas contidos nos cadernos enviados pelo governo. Acusações típicas de quem não tem a mínima noção da vastidão que é o campo filosófico.

Pois bem, novamente a questão do conteúdo filosófico trabalhado em sala de aula do ensino médio. Assunto importante e sério. Pois é na escolha do conteúdo a ser desenvolvido que o professor vegano poderá combater a violenta filosofia do descaso.

Depois de passar por uma graduação onde a História da Filosofia ensinada é a excludente e especista que conheçemos, um novo professor se vê refém dos clássicos manuais de introdução à Filosofia, no momento da prática docente junto aos jovens alunos.

Aqui é que está a questão: quero trabalhar o veganismo, mas que fontes recorrer? Como apresentar e discutir o veganismo sem abdicar dos temas tradicionais que as autoridades pedagógicas acham que tenho que trabalhar?

Sem saber para onde ir os neófitos acabam se apegando aos manuais como tábuas da salvação e em um momento ou outro, quando a temática desenvolvida permitir, eles aproveitam para passar o documentário “A Carne é Fraca”, por exemplo. Ao dialogar com docentes que nos últimos anos usaram tal método percebi que cometem um erro grotesco de estratégia. A intenção é boa, mas o não planejamento produz efeito contrário. Ao invés de despertar consciências, produz revolta e mal entendidos nos alunos e repressão da direção da escola após reclamações dos pais.

O uso sistemático dos manuais de introdução à Filosofia, devido seu caráter pseudo-questionador leva os docentes a um engessamento da prática questionadora e reflexiva diária. Se o professor ao exercer sua função político-pedagógico não autocriticar-se, não pensar sua prática, como ele irá levar os alunos ao exercício fundamental da reflexão, do questionamento de si e de seu entorno.

Não quero dizer que seja tarefa fácil refletir e levar os alunos a reflexão numa sociedade onde a ordem do dia é a servidão voluntária, mas por outro lado, não é coisa de outro mundo, pode parecer em alguns momentos que estamos realizando o trabalho de Sísifo, mas ao final do ano letivo sempre vem o retorno positivo. Aqueles poucos dentre uma massa desgovernada (na verdade muito bem governada) agradecendo os caminhos, as luzes e os túneis.

Por isso, ao permanecer utilizando os manuais de Filosofia como os únicos ou principais recursos didáticos em sala de aula, o professor vegano está legitimando a filosofia do descaso de maneira explícita e abdicando de um excelente material de apoio, porém de caráter não especista. Começemos a trabalhar a educação vegana de maneira objetiva, mas respeitando o posicionamento do aluno. Não ao confronto, muito menos a imposição, sim à didática da provocação. Passemos a utilizar a História da Filosofia apresentada na obra “Por uma questão de princípios”, de Sônia T. Felipe, no “Direito dos Animais”, de Laerte F.Levai, no capítulo I da obra “Direito dos Animais: fundamentação e novas perspectivas”, de Daniel B. Lourenço, são três livros que dão sustentação suficiente para qualquer docente de Filosofia do ensino médio desenvolver um bom trabalho político-pedagógico e filosófico em defesa da causa animalista. É introduzir e refletir os conceitos de especismo, abolicionismo, direito animal, veganismo sem abandonar a História da Filosofia como referência. Na verdade é impossível falar de especismo ou abolicionismo animal sem passar pela História da Filosofia.

Com relação ao batido discurso dos doutos que dizem ser imprescindível para um verdadeiro ensino de Filosofia a leitura de textos filosóficos clássicos pelos alunos (quando dizem textos clássicos se referem a leitura, ao contato direto com a obra de Platão, Aristóteles, Bacon, Hobbes, Kant, Heidegger, etc.), o professor pode selecionar excertos de vários filósofos que defenderam a expansão do círculo da moralidade (mas não deve impô-los como leitura obrigatória, lembre-se da didática da provocação).

O que não falta é texto filosófico especista, como também o oposto, criticando a filosofia do descaso. Que uma coisa fique clara: a educação vegana é o único caminho para abolirmos a filosofia do descaso passada a séculos por pais aos filhos e por professores aos alunos.
Portanto, optar pelo padrão e “assim que der eu passo um documentário e falo do veganismo” é contraproducente. O professor que se diz adepto da causa animalista deve optar pela educação vegana como prática cotidiana e, que ela seja não-violenta, clara, inequívoca e criativa, como diz o professor Francione.

Trabalhar os direitos animais, abolicionismo, veganismo com os jovens exige planejamento, estudo e metolodogia diferenciada; temos bons livros, bons documentários e filmes, bons sites, a excelente revista dos Vegetarianos, além de santuários e um calendário anual de manifestações e palestras para o professor que quiser levar os alunos a sentir na prática o que foi discutido em aula, a ter um contato pessoal com ativistas e teóricos.

A educação vegana assume como característica a crítica e a autocrítica, isso leva o docente a examinar constantemente a realidade em que está inserido e rever as interpretações que se baseia. Ela nos estimula a revisão do passado, a luz dos fatos hodiernos, ela questiona o presente em nome do futuro.

O pensador Simplício disse que o lugar do filósofo na cidade é o de um escultor de homens. Quiçá a constatação mais sensata que podemos chegar do porque é tão difícil esculpir espíritos livres hoje, seja o fato de nunca termos tido filósofos nas escolas.

Bom, mas temos professores de Filosofia, não é o suficiente? Sim e não. Sim, se assumem seu dever moral de não se acovardarem, não se submeterem aos padrões, as verdades absolutas, as ideologias do mercado financeiro, ao cruel e violento adestramento diário dentro das escolas. Não, se exercem sua função de maneira mercenária fazendo o jogo do opressor ou de maneira quietista, servilista, submissa, fazendo o jogo de qualquer um que lhe coloque o cabresto.

Ser professor de Filosofia é exercitar-se na autocrítica diariamente. Se não vivo o que prego, presto um dos piores serviços a humanidade, formo jovens na arte da falsidade e da mediocridade. É justamente para eliminarmos de vez a exploração em todos os níveis dos animais não-humanos pelos animais humanos, que se faz urgente um total engajamento de todos os professores, seja de qual matéria escolar for, que se dizem defensores de animais numa efetiva educação vegana. Educar veganamente é não só combater a barbárie biocida diária, é também impedir que as crianças e jovens de hoje tornem-se os adultos neuróticos e banalisadores do mal de amanhã.

Leon Denis – Professor de Filosofia da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo, co-autor do projeto Mens sana in corpore sano, articulista da ANDA e pioneiro no ensino de Direito Animal e Veganismo em escolas públicas no Brasil.

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