Entendendo as dissidências do movimento de proteção animal


“Você é bem-estarista ou abolicionista?” – é o que se escuta mais freqüentemente quando alguém pretende averiguar sua orientação filosófica a respeito da proteção dos animais. Estas – e outras – dissidências do movimento de proteção animal são freqüentemente colocadas como abordagens absolutamente imiscíveis, antagônicas entre si e até mesmo – por incrível que pareça – inimigas.


Mas que história é essa de “bem-estarista” e “abolicionista”?


Bem-estarismo X abolicionismo
Segundo o filósofo do direito norte-americano Gary L. Francione, que é declaradamente abolicionista, obem-estarismo (welfarism) aceita o uso humano dos animais na medida em que eles sejam tratados de forma mais “humanitária”, isto é, que se procure promover algum bem-estar dos animais explorados. Oabolicionismo, por sua vez, sustenta que o uso e a exploração dos animais, per se, não são moralmente justificáveis e, portanto, devem ser abolidos. A postura abolicionista se fundamenta na defesa dosdireitos dos animais, o principal dos quais seria o direito primário de não ser propriedade.

Abolicionismo.1
Uma parte dos abolicionistas acredita que as medidas não-abolicionistas que regulamentam e restringem o uso dos animais, proibindo abusos e melhorando as condições de animais explorados, são importantes a curto prazo – por enquanto que estamos longe de atingir a abolição. Contudo, se de fato abolicionistas forem, serão grandes entusiastas das medidas diretamente orientadas à abolição, e serão também praticantes e defensores do veganismo (a opção moral de não consumir produtos animais).


Abolicionismo.2
A outra parte dos abolicionistas discorda de qualquer medida (relacionada a animais) que não seja explicitamente abolicionista. Ou seja, reprovariam uma mudança direcionada exclusivamente à melhoria do bem-estar (por exemplo, a obrigatoriedade do uso de anestésicos em procedimentos mutiladores em granjas). Seus representantes argumentam que as pequenas conquistas de bem-estar animal atrasam a abolição, pois deixam os consumidores de produtos animais com a consciência mais leve (ou com a consciência anestesiada) e, portanto, menos propensos a mudar de hábitos de consumo. Em última análise, portanto, os animais seriam prejudicados, porque a sua exploração perpetuar-se-ia.


Os rótulos
Hoje, os rótulos atribuídos compulsivamente pelos próprios protetores de animais geram uma grande polarização no movimento. Na verdade, a própria distinção categórica entre bem-estaristas e abolicionistas, que eu aqui faço, já é negativa no sentido de que alimenta esta polarização, mas será aqui mantida em nome do fácil entendimento. Alguns abolicionistas (do segundo grupo explicado, acima) diriam que: ou você é vegano, abolicionista, convicto e intolerante às tão-somente mitigações do sofrimento (a estes alguns chamariam de radicais”, o que eu discutirei em um post futuro), ou você não é nada. Um tanto contraproducente esta forma de ver as coisas, uma vez que fecha as portas para a manutenção de boas e frutíferas relações de cooperação entre estes dois principais segmentos do movimento. Por outro lado, bem-estaristas não-vegetarianos freqüentemente referem-se aos abolicionistas como radicais, exagerados e emotivos – o que é uma afirmação não somente contraproducente mas também falsa.


A exagerada suavização do problema
Apesar de preferir evitar os rótulos por acreditar que eles são geralmente negativos para a causa, é impossível não ressaltar que o bem-estarismo puro é, de fato, uma postura incoerente com o verdadeiro respeito aos animais. Sob o ponto de vista da lógica e da ética, é inconsistente a postura estritamente bem-estarista que assume que “se não maltratamos tanto, não faz mal”. Claro que faz mal! As galinhas, porcos e vacas são animais sencientes – de forma muito semelhante ao seu cão, seu gato, a um chimpanzé ou a você mesmo. Têm interesse em ser livres e em que não se lhes causem dor ou sofrimento. Portanto, da mesma forma que faz mal você explorar e confinar o seu cão ou o seu vizinho (ainda que sem maus tratos explícitos e gritantes), faz mal, sim, que utilizemos os animais como objetos ou meros meios para satisfazer nossos interesses (ainda que sem maus tratos explícitos e gritantes).


O certo e a prática
A abolição da escravidão animal é necessária. Mais do que isso, ela é urgente. Um mundo com paz só será possível se, antes, os bilhões de animais hoje explorados deixarem de ser coisas, commodities, instrumentos; passarem a ter seu valor inerente respeitado, em detrimento daquele valor que lhes é atribuído sob parâmetros e interesses humanos. Enquanto cultivarmos o status de propriedade dos animais e a subconsideração dos seus interesses, estaremos cultivando a própria violência.


Contudo, ainda estamos em 2010. Gostaria que já estivéssemos em 2030, quando a humanidade já terá refletido muito mais sobre a exploração animal do que fez até hoje. Quando, talvez, 50 ou 70% da população brasileira ao menos saberão o que acontece com os animais para que um simples e inofensivo (?) ovo chegue às prateleiras do supermercado. Quando, talvez, 30 ou 40% da população brasileira ao menos lembrarão dos interesses dos animais quando estiverem diante de um pedaço de carne à venda. Aí, sim, possivelmente teríamos cenário para uma atitude abolicionista inequívoca e intolerante a meios-termos e pequenos-ganhos.


Hoje, entretanto, a preocupação mais importante – e que deve ser objeto do maior número de esforços – deve ser a informação dos consumidores, a reflexão que se segue à informação e, por fim, a mudança de hábitos daí decorrente – mesmo que não seja uma mudança imediata para o veganismo. Sei que a galinha “de capoeira” normalmente não vive plenamente, e nem morre de velha, mas eu ficaria muito feliz se visse que todos os que me rodeiam se recusam a comer frangos e ovos industriais, ainda que comam os de capoeira.


Por isso, acredito que a postura mais sábia e estratégica – ou seja, aquela que chega mais perto de atender aos interesses dos animais enquanto indivíduos -, em 2010, é aquela que tenha umfim abolicionista, mas tolere os meios bem-estaristas.


O mais importante
Em tempo: devemos lembrar que não faz nenhum sentido refletir sobre as vertentes do movimento de proteção animal ou questões teóricas mais profundas se você não olha para você mesmo antes. Afinal, como disse certa vez a Nina Rosa, presidente de instituto homônimo e idealizadora do filme A Carne é Fraca, “Para os animais não importa o que você pensa ou sente; para eles, importa o que você faz”. Mãos à obra!
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