A questão humana e o anarquismo

O símbolo da Veganarquia, de Brian A. Dominick.

O veganismo é uma prática moral que preza pela valorização da subjetividade dos animais não-humanos, evitando assim os abusos inerentes a objetificação dos mesmos. Contudo, tal definição per si seria especista. Por que não incluir nesse discurso a humanidade? Afinal, não existiria diferenças tão relevantes que permitiriam que o ser humano tivesse o ônus de poder ser, para conveniência de outrem, objetificado. Portanto, vejo que um dos maiores problemas teóricos de qualquer concepção que funda o veganismo, é a questão dos seres humanos.

Como exemplo de concepção fundamentadora do veganismo, irei usar a teoria reganiana de Direitos Animais. Logicamente, devido a brevidade deste post, não pretendo nem ouso resumir uma teoria tão extensa quanto a de Tom Regan, mas procurarei fazer o máximo para sintetizar a ideia do filósofo americano no parágrafo a seguir:

O problema do especismo é que os humanos acabam por ver os animais não-humanos como meros meios para atingirem seus fins. Assim, o animal acaba por ser objetificado, sendo tratados como objetos e não como sujeitos-de-uma-vida que são. Por assim serem enxergados pela humanidade, o status moral deles se equivale a de, por exemplo, um relógio ou qualquer outro ente inanimado. Isso conduz a violação sistemática de seus direitos.

Como leitura rápida para compreender a teoria de Regan, recomendo o artigo O caso dos direitos animais. Para uma explicação mais minuciosa, recomendo Jaulas Vazias, do mesmo autor.

Agora, transpondo tal linha de raciocínio para seres humanos, no que daria? Afinal, dentro de diversas relações humanas, outros humanos são encarados meramente como objetos, funcionários (entes que exercem uma função dentro de um sistema) ou números, que possuem como fim serem usados como meio para atingir um objetivo que lhes é estranho. A própria relação trabalhista ilustra muito bem isso: o trabalhador é usado por seu patrão como meio para aumentar seu patrimônio. Essa relação oblitera a subjetividade do ente objetificado, o que permite sua espoliação de forma moral (que, de fato, acontece).

Porém, essa análise carece de duas noções importantes e de grande relevância: enquanto os animais não-humanos, via de regra, são interrogados se consentem serem tratados como meios para fins (fins estes que muitas vezes envolve sua própria aniquilação enquanto ser senciente), o animal humano normalmente é interrogado se o consente (salvo o trabalhador forçado em suas diversas modalidades). O consentimento, então, legitimaria moralmente essa objetificação do animal humano?

Além disso, nas próprias relações de consumo o humano acaba por se tornar um meio: o consumidor é, em geral, para o produtor apenas um meio para seu enriquecimento. Numa visão mais radical, não importa muito que o consumidor é ou não um ser humano, apenas que ele é um número, um bolso, um instrumento para a realização dos interesses do produtor, que é seu próprio enriquecimento. A satisfação do consumidor, então, é meramente acidental.

Ajuntando-se a problemática das relações trabalhistas e, sua semelhante, relações de consumo, pode-se ver que a crítica respinga na legitimidade da organização estatal.

O Estado exerce, por definição, forças coercitivas sobre determinada sociedade. Sua legitimidade, contudo, não é incontestável (apesar de pragmaticamente o ser). Qual é a legitimidade das leis que lhes são impostas sem sua participação em sua elaboração? Ao meu ver, teriam caso houve um deslocamento livre e de sua vontade para o campo de influência normativa desse Estado. Mas, e no caso de você simplesmente nascer lá?

Naturalmente, tais problemas não foram simplesmente deixado de lado. Há quem refletiu acerca deles, antes mesmo do veganismo, encontrando uma diversidade de soluções. Uma dessas soluções foi o endereçamento das três problemática por uma abordagem anárquica, ou seja, anti-coercitiva e libertária. Por sinal, a única escol política vegana é anarquista, o Veganarquismo, que entende que a abolição do especismo faz parte da Revolução Social necessária para a efetivação de um status anárquico. Um lema veganárquico muito difundido é “Libertação Animal e Humana”.

Não é, portanto, a toa que há diversos termos anárquicos e tendências libertárias no Movimento dos Direitos Animais, sobretudo aqui no Brasil. Termos como Ação Direta, Autogestão, a grande fragmentação de organizações, o ativismo independente, etc. Tudo possui uma ligação histórica e conceitual com o anarquismo em suas diversas formulações. Creio que não seja absurdo cogitar dizer que metade dos veganos brasileiros ou são anarquistas ou tendem ao anarquismo e outras formulações libertárias.

Para saber mais sobre anarquismo, recomendo um artigo esclarecedor do blogue do Coletivo Anarquista de Piracicaba e Região (coletivo este que está engajado com a causa antiespecista) sobre o tema.

Fonte: Opinião vegana

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2 responses to this post.

  1. Posted by Lorival Ferreira on Janeiro 15, 2011 at 05:15

    EXELENTE texto, esclarecendo um pouco o pensamento do filósofo Tom Regam, o autor mostrou a originalidade do seu pensamento, que aponta um viés próprio embora não confronte o de T. Regan.
    A ECONOMIA de mercado, efetivamente, não tem o condão de ordenar a sociedade como seus defensores apregoam.
    A AFIRMAÇÃO do autor do presente texto de que o consumidor não é de fato um destinatário de direito está completamente correta.
    TANTO isto é verdade que os empresários se importam com a “circulação de bens, serviços e dinheiro”, não com o bem estar dos consumidores, há um esforço máximo na mídia defensora do sistema de que “lucro é sadio” e que lucro é satisfação humana, mas lucro na verdade é incompatível com a realização plena de todas as potencialidades humanas.
    O ESTADO, por sua vez, fundado na violência como sabemos é um fator de risco para o próprio Planeta Terra.
    ARVORANDO-SE em detentores de uma qualidade abstrata, denominada “soberania”, a qual, afirmam, promana do povo, na verdade reimplanta o absolutismo dos antigos monarcas.
    O ESTADO de Direito, proveniente do pensamento iluminista, mesmo como preconiza Charles de Montesquieu em “L’Esprit des lois”, com a forma jurídica de mudança e ocupação do poder, instaurou é verdade o homem como portador de direitos naturais, mas manteve o poder do Estado sobre até a vida, podendo declarar guerras, promulgar penas de morte etc.
    MAS o pior de tudo, foi que o estado da semidemocracia que vivemos foi apropriado desavergonhadamente pela elite econômica.
    JA A FILOSOFIA vegana, fundamenta-se numa perspectiva que assusta terrivelmente a economia de mercado.
    O VEGANO sonda a origem do que consome.
    O VEGANISMO define o consumidor como responsável por toda a corrente produtiva do que ele consome e resolve selecionar as correntes da ação às quais se vinculará e as que não serão aceitas por ele.
    ISTO coloca uma autonomia de decisão no controle dos indivídous que não foi ainda objeto da perseguição metódica do capitalismo e do governo porque esta apenas no começo.
    PODEMOS contar com grande oposição no futuro.
    A INDUSTRIA da matança de gado será a primeira a desejar os veganos na cadeia.

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  2. […] Para ler o artigo “A questão humana e o anarquismo”, clique aqui. […]

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